domingo, 27 de fevereiro de 2011

midnight walker, o assassino implacável


midnight walker, o assassino implacável, chega ao beco atrás de um pequeno bar. montes de lixo estão empilhados, lixo com cheiro de álcool e vômito. a futura vítima está de joelhos, indefesa - já sabe que não existe nenhuma chance de misericórdia.

isso é entre você e quem me contratou, meu caro. eu só estou sobrevivendo.

são três tiros, um absoluto ritual. os dois primeiros no peito, o terceiro na cabeça. midnight walker sempre alveja os mesmos lugares. a precisão é perfeita e o som da arma é como o de uma águia que avista sua presa. o sangue escorre, se mistura com os sacos pretos de lixo em um contraste cuja beleza se assemelha à de whisky recém colocado no copo. puro.

midnight walker, o assassino implacável, chega ao bar à frente de onde terminou seu último serviço. pede um whisky. puro. ao vê-lo no copo, reluzente, se lembra do sangue escorrendo e se juntando aos sacos pretos de lixo. acende um cigarro e vê a fumaça lentamente se dispersar entre todas as figuras perdidas naquele lugar que é quase uma igreja onde as pessoas vão para cultuar a solidão.

vê três dessas figuras, três amigos. no centro, o melhor pianista de jazz que já se ouviu tocar nesse mundo. costumava entregar a alma em cada canção. à direita, o detetive dos narcóticos na cidade. poderia entregar midnight walker aos colegas quando quisesse, mas nunca o fizera. prezava a amizade e o caráter daquele que carregava a arma junto ao coração. à esquerda, o escritor que perdera tudo por causa de uma mulher. tinha talento, mas sua vida fora arrancada por uma boca com batom vermelho e uma voz sensual.

três copos de whisky, três cigarros. quatro, com os de walker. jazz no fundo.

nenhum deles tinha para onde ir. todos tinham suas esposas, famílias e vidas, mas nenhum tinha verdadeiramente para onde ir.

o pianista costumava dizer sabe, walker, eu acho que a solidão é como a música. ela está no meu sangue, eu não posso tentar fazer outra coisa além de tocar. e assim ia embora enquanto sua esposa colocava as crianças para dormir e limpava os cinzeiros.

midnight walker, o assassino implacável. talvez ele só quisesse saber porque precisava ser daquele jeito.

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esse texto é baseado na música cujo link está logo acima. trata-se de uma semi-sinopse pra um roteiro em desenvolvimento. e porra, escrever um noir é bom demais.

1 outros delírios:

Sofia A. disse...

Absolutamente incrível, li o texto ouvindo a música, e tive a imagem perfeita, assisti à cena de puro noir, incrível.
Um beijo!