quarta-feira, 16 de março de 2011

da nostalgia, parte I

acho que eram os tempos da quinta série, quando nós simplesmente chegávamos na sala de aula e tínhamos orgulho de ser a famigerada turma do fundão. éramos eu e mais três amigos em um dos lados, quatro meninas do outro, uma proporção perfeita. todos pré-adolescentes tentando roubar o primeiro beijo de alguém, loucos com o cine privê e seu softporn nas madrugadas de sábado, discutindo algum game novo enquanto a professora explicava a lição de matemática e nos sentindo os grandes contraventores por isso.

às vezes, surgiam as guerras de bolinhas de papel. também existiam algumas outras brincadeiras que eram as preferidas do grupo, como a de encher um papel de pó de giz, enrolar e mandar pra alguém como se fosse um bilhete. gargalhadas instantâneas. em dias de muita inspiração, alguém tinha uma idéia brilhante e ousada - vamos colocar doce de leite na maçaneta da porta? - glória instantânea.

daquelas quatro garotas, duas enlouqueciam os rapazes - uma delas mulata e com o corpo todo extremamente desenvolvido pra uma menina de onze anos, a outra nem tanto, mas, nas nossas cabeças, muito bonita de rosto. elas eram os alvos eternos. a brincadeira era um revezamento para passar a mão na bunda das duas.

o que realmente me assustou quando eu comecei a lembrar disso foi o quanto nós não tínhamos mais nada para nos preocupar e o quanto aquilo era importante pra nós. traçávamos planos de cobertura complexos, você vai na frente, passa a mão, ela vai virar pra te bater, eu venho andando por trás e passo também. as mentes eram malignas. e a idéia normalmente funcionava.

eu não acho que elas ficavam muito bravas com aquilo. costumavam dar uns dois socos no braço e todos voltávamos a ser amiguinhos e conversar no fundo da sala.

e nos sábados de manhã, nós íamos jogar futsal. era o time da sala, meu pai de técnico. nenhum de nós passava perto de ser bom naquilo, pelo contrário - era comum placares do nível de 14 a 0 contra a nossa poderosa esquadra. mas ninguém se importava, a doçura de estar ali, com as camisas vermelhas e brancas das quais eu orgulhosamente vestia a dez, era maior que qualquer coisa.

entre passadas de mão na bunda, sábados de futsal e idas pra diretoria, os dias iam passando. nenhum de nós sabia o futuro. nenhum de nós sabia como era ter uma namorada, ter responsabilidades, estudar, ter sentimentos muito mais complexos que os pelo vídeo-game, pelo palmeiras e pelas revistas playboy. nenhum de nós percebia o tempo passando.

numa festinha de aniversário, alguém chutou uma bola que foi parar do outro lado do muro. ninguém entendeu o que tinha acontecido, mas uma tensão maior começou a aparecer. um início de briga. acusações.

óbvio que tudo terminaria bem, com bolo e brigadeiros, mas era o começo do fim.

e a gente deve ter sido amigos por mais um ou dois anos. depois, nunca mais vi nenhum deles. nem sei se as meninas realmente ficaram bonitas. uma vez ou outra vi o perfil de algum numa rede social aleatória e me decepcionei violentamente. axé, bombas, abadás. mundo triste.

mas naquela época, nós nem sabíamos das diferenças. só queríamos jogar futebol, mandar pó de giz pras pessoas que não eram do nosso grupo e passar a mão na bunda das meninas.

do que mais se precisava?

1 outros delírios:

Nina Vieira disse...

Eu ainda sou adolescente. Morra de inveja.