sexta-feira, 11 de março de 2011

das vitórias

mulheres, o esporte é apenas uma introdução, favor não se assustarem.

existem dois times pelos quais sou doentiamente apaixonado - um de futebol, chamado palmeiras, e um de futebol americano, chamado oakland raiders. são dois times com passados gloriosos, vencedores de inúmeros títulos, considerados inovadores e responsáveis pelos avanços de seus esportes, considerados sempre à frente de seus tempos. seja na quarta, no domingo, ou em qualquer outro dia, em hipótese alguma eu deixo de assistir algum jogo deles. se os dois estiverem em campo no mesmo horário, dou um jeito de botar duas tvs, uma ao lado da outra.

o fato é que esses dois times, há muito tempo, deixaram de ser vitoriosos. quando eu era criança, vi o palmeiras ganhar alguns títulos, mas os raiders, desde que comecei a acompanhá-los com toda essa intensidade, nunca sequer tiveram um ano com mais vitórias que derrotas.

e você está lá, vendo essas duas esquadras que falam tanto pro seu coração, lado a lado, jogando, perdendo. perdendo sem reação. com o topo da tabela tão distante. com a possibilidade de ser campeão já impossível.

eis que, subitamente, você aprende a perder.

aprender a perder e se acostumar com derrotas não é fácil. a vida é cheia delas pra qualquer um, principalmente pra quem sempre tenta jogar. jogando toda quarta e domingo, ainda mais num time que se desabituou a ganhar, é quase que uma convivência irreversível com a derrota constante.

você tem que saber que a vitória nunca é fácil. o outro time pode ser muito pior, mas ele conhece suas táticas melhor que você a dele. ainda mais quando você é o tipo de pessoa que sai de casa e esquece as chaves na maçaneta. do lado de dentro.

é estranho demais tentar conhecer as pessoas. você tem seus princípios morais, você tem suas convicções sobre a vida e a morte. sobre o amor e o ódio. sobre quaisquer outras duas coisas opostas que você queira colocar aqui. você se conhece, sabe como você age em qualquer situação, sabe que em festas em lugares fechados, vai entrar só pra ir até o bar, pegar uma cerveja, voltar pro lado de fora e ficar fumando eternamente.

porém, para que as pessoas saibam também como você age é outra história. para que elas te aceitem. para que elas olhem para você e te conheçam.

e ninguém, não importa o quanto tenha estudado, o quanto seja conhecedor dos poderes da mente ou de qualquer coisa do tipo, vai te conhecer. eles não vão ter passado pelas mesmas coisas que você. eles não vão ter sentido as mesas coisas que você.

sentir é fundamental. sentir é tudo.

sentir a solidão. sentir o sangue escorrendo das suas mãos. sentir suas fraquezas. sentir seus erros. sentir o incondicional fato de estar sempre errado.

de estar derrotado outra quarta, outro domingo, outra segunda, outro dia.

e então, olhar para os seus times. olhar e refletir. para os seus times, para as pessoas que você já amou. para as pessoas que você já quis muito mais que uma noite, para uma paixão de verdade.

são coisas do coração. coisas impossíveis de explicar.

os times que você torce. as mulheres que você quer. os lugares que refletem sua alma. a sua personalidade.

por que você tem que ser a pessoa que fuma no lugar escuro? por que você tem que ser a pessoa que não vai pra pista de dança? por que você tem que tomar outra dose?

talvez você simplesmente não escolha seus times. talvez eles escolham você.

mas o fato é que, com toda tradição, um dia eles voltarão a ganhar.

5 outros delírios:

Carolina Devens Rabelo disse...

Sinto o mesmo.
(torço para o Vasco da Gama)
Tenso.

Sofia A. disse...

"Meus times" andam perdendo sem parar, já faz um tempo.
Me disseram uma vez que ser saudável é parar de cometer os mesmos erros, é poder cometer outros novos.
Parece simples, mas não é nada.
No fundo, acho que temos uma espécie de inércia que nos leva exatamente ás mesmas faltas, vez após outra. O negócio é quebrar o ciclo.
Um beijo!

Victor disse...

Íncrível o quanto seu texto me fez pensar sobre milhares de coisas. Precisei comentar pra dizer "Obrigado". Curti MUITO o seu blog. Abração.

Anna Vitória disse...

Gostei demais com a analogia dos times, e admiro seu texto porque eu quero ser assim um dia. Aceitar perder. A vida toda eu sempre fui loucamente obcecada por "ganhar" e de uns anos pra cá eu tenho aprendido - devagar, mas vá lá - que não é sempre assim. Aliás, na maioria das vezes não é assim.
Beijo!

Anna Vitória disse...

Ah, lendo seu texto me lembrei de uma música chamada Dois de Paus, da banda Lestics, que tem um verso que diz assim: "porque a sorte é traiçoeira, mas o azar, esse é leal".
Achei que tinha a ver.