sábado, 19 de março de 2011

pão de queijo, cigarros e o fracasso

não bebi hoje. cheguei em casa umas 7 da manhã, coloquei o celular pra despertar às 11 e não acordei. só ali pelas 3 da tarde, assustado, que eu vi que horas eram e me levantei da cama.

mas não fazia nenhuma diferença - eu não tinha absolutamente nada pra fazer o dia todo.

vinte e três anos vividos. uma faculdade quase terminada, um livro publicado que ninguém leu, um filme que ninguém assistiu, uma coleção de amores mal resolvidos, uma centena de porres, quedas e amnésias.

a vida vai lentamente passando e você vai ficando pra trás. quais são as perspectivas? um apartamento em são paulo, um emprego medíocre numa produtora, escravidão. um bar na sexta-feira ou no sábado, alguma garota bonita que durma na sua cama por umas duas semanas até vocês se encherem de defeitos e intolerância.

eu acordei hoje, fui no posto de gasolina, comprei um pão de queijo e um maço de cigarros. meus óculos escuros escondendo a ressaca, meu cabelo despenteado. peguei o ônibus e vim pra minha outra casa. precisava de descanso depois de ter passado praticamente quatro dias bêbado. comer batata frita, assistir um jogo de tênis da tv, ouvir os resumos dos seriados da semana. olhar a janela. deitar com o notebook na cama, perceber que mais uma semana passou.

uma semana, infinitos litros de cerveja e mais de uma centena de cigarros mais perto do fracasso.

o engraçado é que hoje eu não bebi. não tinha pensado em nada disso nos outros dias todos da semana.

me dêem uma outra cerveja salgada, uma mesa e uns amigos pra conversar. me dêem um jogo de futebol, mulheres destruidoras pra se lamentar e falar mal, uma noite que nunca termina. me dêem outra cerveja. e outra. e outra. e outra.

o mundo pode continuar girando lá fora, mas o fracasso passa a parecer tão distante.

5 outros delírios:

Victor disse...

mais um texto maravilhoso. difícil quando nos damos conta do quão vazia possa estar nossa rotina. abração!

Ju Fuzetto disse...

Detalhes. O mundo gira e eles nos prendem tão bem....

Sofia A. disse...

A impressão que fica é que, qualquer que seja o cotidiano, sóbrio ou não, o mundo parece sempre tão o mesmo que não há pelo que acordar de manhã...
Incrível texto.
Um beijo!

Nina Vieira disse...

Somos dois.

Nina Vieira disse...

Somos dois.