gostava muito de pegar os trens noturnos. lá escurecia bem mais cedo, coisa do tipo quatro e meia da tarde, e quando eram seis ou sete horas a falta de luz já era tão assustadora como é à meia noite aqui. aí esses trens iam passando por pequenas cidadezinhas, a maioria delas eu não faço idéia de como se chamavam. eu ficava imaginando vilarejos de cinco, dez mil habitantes, e aquelas estações construídas a não sei quantos anos. toda aquela escuridão, todo aquele breu, os habitantes que deviam ser agricultores ou pequenos comerciantes locais assistindo televisão e esperando um próximo dia. essa rotina eterna no meio do nada. e eu passando por ali, à noite, solitário.
sempre quis saber quem limpa os trilhos quando eles estão cobertos por centímetros e centímetros de neve, de madrugada. deve ser um dos trabalhos mais incríveis desse mundo. com certeza essas pessoas seriam excelentes escritores.
a estação central de roma toca incessantemente a música tema de a doce vida. eu não aguentava mais ouvir aquilo quando passava umas quatro ou cinco horas esperando trem nela, mas depois que eu voltei até já cheguei a colocar o dvd do filme só pra relembrar de um lugar que eu teoricamente não suportava.
cheguei em firenze num domingo de manhã, era muito cedo, umas cinco horas. minha preocupação central, além de conhecer a cidade, era comprar souvenirs pra enviar pra uma garota louca pelo local. fiz o melhor que eu pude e mandei num pacote já no dia seguinte. não sei se me deixa mais triste o fato de nunca ter chegado ou de que, mesmo que tivesse, não teria adiantado nada.
posso dizer que nunca deixei de ser eu mesmo só por estar longe de casa. e eu bebia até mais do que aqui, e acabava bebendo muita tequila, principalmente por ter vários mexicanos andando junto comigo. minha quantidade de amnésias alcóolicas por lá é imensa e é daí que vem um dos maiores enigmas da minha vida - acordar no meu quarto no já no dia seguinte descobrindo dois nomes de italianas anotadas num rascunho no meu celular e uma calcinha na minha mochila. acho que nunca vou descobrir o que realmente aconteceu naquele dia.
e, principalmente, eu não deixei de ser eu mesmo por aquelas coisas inerentes à vida. as características pessoais óbvias sobre a sua personalidade, como confundir as datas de sexta e sábado na hora de comprar passagem pra algum lugar e, na hora de embarcar, perceber que tinha errado tudo. carlos sendo carlos na essência mais pura da desatenção e da irresponsabilidade.
não sei o que fica de mais encantador nessa história toda. talvez seja alguém que tinha pizza como comida preferida passando a não aguentar mais ver pizza na frente. talvez seja tornar seu idioma principal quase secundário e desprezado na sua cabeça, uma das sensações mais incríveis de liberdade que existem. talvez a noção de o quanto uma cultura de um lugar longe pode ser tão diferente. talvez uma conversa com uma velhinha simpática de napoli me dizendo o quanto é bom morar naquela cidade.
só queria poder voltar a comer um pão italiano com queijo pecorino e salame numa cidadezinha do alto das montanhas coberta de neve. mas, um dia, i'll be back. ou melhor, io ritornerò.

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