marcos não sabia bem o que fazer, então convidou aquela garota pra jantar. ela tinha algumas coisas diferentes de todas as outras, uma tatuagem de pássaro na parte lateral da cintura - mulheres tatuadas são infinitamente mais atraentes, fato da humanidade - um sorriso amarelo, coisa de quem fuma muito e não vai no dentista há mais de um ano, e um olhar que absolutamente dizia eu não tenho medo. eu quero. e eu quero muito.
mais que a tatuagem - que deixa as garotas infinitamente mais atraentes, fato da humanidade - o jeito dela era conquistador. e ele mal sabia o nome dela, só tinha decorado o pássaro na sua cabeça a cada noite quando ia dormir, como também o incrível par de pernas. a calça que marcava lindamente a bunda, que o fazia acordar excitado todas as manhãs. e o jeito que ela tragava o cigarro. no canto da boca, com um quê de sarcasmo. quase como dizendo olha, o que você está esperando pra substituir esse meu canudo de nicotina com outra coisa? você sabe que eu gosto mais. você sabe que eu quero. e eu quero muito.
no jantar, ele descobriu que ela se chamava mariana. ele já tinha descoberto isso antes, só não conseguia se lembrar por causa da tatuagem - que deixa as garotas infinitamente mais atraentes, fato da humanidade. mas marcos não era uma boa pessoa e nunca tinha sido. havia levado pra casa um número suficiente de garotas na vida sem ter ligado na manhã seguinte, havia feito um número que a sociedade reprovaria de tatuagens, havia construído um conceito anormal de vida e de moral. só que, ele bem sabia, nenhuma dessas garotas fumava no canto da boca. nenhuma tinha pássaros tatuados - e mulheres tatuadas são muito mais atraentes, fato da humanidade - na região lateral da cintura.
mariana acordou ao lado de marcos, na cama. ela sorria, embora não soubesse o que dizer. deu uma volta por aquele apartamento desconhecido, tomou água e olhou o relógio. oito da manhã. com certeza já havia claridade do lado de fora. com certeza já algumas pessoas se direcionavam ao trabalho. metrô funcionando, ônibus em movimento. escovou os dentes compartilhando a escova, esse fato tão de estamos semi-casados. mas não só não estavam como nem sabiam os sobrenomes um do outro. nem sabiam as datas de nascimento.
muito menos, sabiam os telefones.
marcos não sabia que mariana havia tatuado aquele pássaro para simbolizar a liberdade, porque havia lido essa codificação num site na internet e achado suficientemente bonito e significativo - mas sabia que mulheres tatuadas são muito mais atraentes, fato da humanidade. não sabia que ela nunca tinha namorado, apesar de ser tão bonita e sedutora - e que nem sequer era maior de idade. não sabia que ela gostava de arroz e feijão, que nas festas preferia vodka a cerveja, que não gostava de homens ligeiramente gordos nem de cabelos compridos. não sabia que ela não costumava engolir, tinha aberto uma exceção só pra ele. nem que era a única noite que estava fumando carlton em vez de free.
se ele soubesse, diria mas que porra de mudança é essa? vira gente e fuma direito, caralho. mas quanto a engolir ou não, continue assim, por favor.
mariana não sabia que marcos fumava porque não aguentava os fardos da vida, que queria morrer cedo porque, apesar do número de garotas que já havia levado pra casa, as poucas que tinha conseguido gostar - ou amar, palavra pesada demais - eram pequenas princesas procurando um amor infinito ou ao menos duradouro o suficiente pra que o dinheiro atasse as crenças ímpares dos casais. que eram pequenas princesas incapazes de entender o significado de tatuagens, de óculos escuros, de marcas de bebidas ou, mais importante, de formas de beijar. que eram pequenas princesas que surtavam após finais causados por elas próprias. não sabia que nas festas ele preferia a mais podre cachaça, porque ela também era mais destrutiva. e que ele até fumava cigarros ao contrário nos momentos mais difíceis, soltando a fumaça pelo filtro, porque invariavelmente a morte assim pega muito mais cruelmente.
tinham comido lasanha de quatro queijos, tomado refrigerante - a primeira vez na vida de marcos em tanto tempo que ele nunca saberia dizer - e ido para aquele pequeno apartamento. um apartamento que não era limpado há muito tempo, que tinha teias de aranha, que tinha uma televisão que não saía dos canais de esportes havia meses. ele não gostava de abrir a janela. ele fumava ali dentro, lucky strike red, cigarros de verdade. só tinha cerveja na geladeira, água só vinda da torneira. e uns beijos quentes, mãos nos peitos, mãos na bunda, mãos em todos os lugares. e sexo, ela não era virgem, mas também não era uma das meninas que ele queria desvirginar. ela tinha aquela tatuagem de pássaro na lateral da cintura - e mulheres tatuadas são muito mais atraentes, fato da humanidade.
e na manhã, nada fazia sentido. o gosto de porra na boca de mariana, a vontade de acender um lucky strike red de marcos. e ele deu um pra ela, fume aí, mesmo tendo escovado os dentes com a minha escova (puta que pariu, hein, pensava), vai ajudar. ela fumou, mas tossiu, porque antes era só acostumada com free e, uma vez, carlton. o fato de ela ser uma garota rodada e que engolia não significou nada pra ele - mesmo sem saber de nada da verdade - e o fato de ele ter feito o que ninguém costumava fazer tinha significado muito pra ela. porque porra eu tenho que sair com garotas inexperientes, ele tinha no fundo do cérebro. taí um cara de verdade, jogou tudo na minha garganta, ela tinha no fundo cérebro.
mas não tinham trocado sobrenomes. não tinham trocado nem telefones.
tinham impresso algumas coisas um na cabeça do outro. ele sabia que ela tinha uma tatuagem de pássaro na lateral da cintura - o que deixa as garotas muito mais atraentes - que ela tinha uma puta bunda e que ela engolia. ela sabia que ele fumava lucky strike red, que ele tinha uma casa suja e que ele costumava avançar o sinal.
ele com certeza queria ela de volta na cama dele. ela com certeza gostaria de voltar pra cama dele.
mas não tinham trocado sobrenomes. não tinham trocado nem telefones.
e às dez da manhã, ela foi pra aula. ele deu um foda-se, acendeu um lucky strike red e fumou até o fundo dos pulmões.
vida que passa. amores que nunca seriam. e porra, ela realmente engolia. e ela realmente tinha uma tatuagem na lateral da cintura - o que faz as garotas muito mais atraentes, fato da humanidade.
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1. quem acertar de que filme é o diálogo lá em cima, ganha um "parabéns, você é realmente foda."
2. terceira pessoa e nomes fictícios, né. meus últimos dois textos viscerais em primeira pessoa renderam um "vai se foder" nos comentários. obviamente, deletados. (só porque as pessoas tinham se reconhecido nos textos, claro. se você não sabe quem eu sou e me odeia, mande eu me foder, à vontade.)
3. são cinco e meia da manhã e eu estava bebendo desde às seis da tarde. só pra constar.
4. garotas tatuadas são muito mais atraentes - fato da humanidade.

2 outros delírios:
1- o bandido da luz vermelha
A garota de tatuagem de passaro tinha uma simplicidade no sorriso de canto de boca. Uma extrema liberdade pregada nos pés. Deixava ser simplesmente e não se importava com nada. Ele se importava apesar do apê sujo. Ele acomadava um coração limpinho, quase azul.
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