mas acabei esquecendo disso. peguei o avião no aeroporto de roma e logo estava vendo aquela maravilha debaixo de mim enquanto o pouso começava a ser executado. praga. acho que nenhuma cidade eu tinha sonhado tanto em conhecer. horas e horas no google vendo fotos da arquitetura, dos prédios, lendo sobre os museus, sobre as cervejas, sobre a vida noturna. e de repente, eu estava lá. a cidade também coberta de neve, menos oito graus nos termômetros. um mapa na mão e um albergue pra chegar. dois dias pela frente pra explorar o máximo possível.
o começo foi difícil. não fazia idéia de como chegar no albergue, não falava uma palavra de tcheco - não falo até hoje, claro. perguntei - obviamente em inglês - pra uma moça em frente a uma estação de metrô e ela foi de uma simpatia inacreditável, praticamente me conduzindo até a plataforma onde eu deveria ir e explicando cada mínimo detalhe da jornada que eu teria pela frente. era de belarus. não faço a mínima idéia do gentílico de alguém que nasce em belarus.
então, veio a primeira noite. eu e o amigo que tinha viajado comigo escolhemos um bar no guia da cidade e resolvemos ir até ele. beber a melhor e mais pura cerveja tcheca, por favor. mas antes mesmo, no caminho, encontramos um grupo de pessoas andando sem rumo pelas ruas e trocamos nomes e nacionalidades. o grupo era composto por noruegueses, predominantemente, mas também tinha um macedônio, um grego e mais outras coisas que eu não vou nunca me lembrar. uma das norueguesas era uma morena muito bonita. o suficiente pra nos juntarmos ao movimento.
a idéia excepcional era andar de bar em bar. em cada bar, uma cerveja, e então o próximo. o mais perto do anterior. passamos por vários bares até chegar no destino final, já umas quatro da manhã, que era uma espécie de discoteca, com uma longa pista de dança e algumas mesinhas daquelas acolchoadas num canto afastado. todos os demais foram pra pista e eu fiquei ali bebendo com a norueguesa bonita. ela me falou que não fumava, só chupava pastilhas de nicotina. eu pedi uma e experimentei. era muito ruim. falamos sobre a noruega, falamos sobre o brasil. falamos sobre ser um escritor. acabou sendo uma noite excelente, e isso é bem mais singelo do que vocês podem estar pensando.
obviamente, eu não lembro o nome dela. não lembro nem os nomes das brasileiras que conheço pela noite, de uma norueguesa seria bem mais difícil.
e eu não tinha tido tempo de tirar o tênis o dia todo. meus pés doíam muito na hora de voltar pro albergue. devia ter acontecido algo de errado.
as tardes eu aproveitava pra conhecer os museus e os pontos turísticos, tirar fotos da cidade, comer os pratos típicos. fui no museu do comunismo, no de tortura medieval. mas o principal é o do castelo de praga, que era a sede do reino da boêmia. um verdadeiro e real castelo medieval, intacto, com várias lembranças e objetos de séculos e mais séculos atrás.
o problema foi que eu cheguei atrasado por lá e não tive tempo de ver tudo. fui comunicado na metade do percurso que estava fechando e eu tinha que sair. porra.
na segunda noite, meu amigo, que era gay, desapareceu. mais tarde eu descobriria que ele conhecera um tcheco e deve ter passado o resto do tempo em pura diversão carnal. ótimo pra ele. mas eu aproveitei pra me afundar de verdade na noite daquela cidade.
fui num cassino. o valor mínimo pra se jogar pôquer era 1400 coroas tchecas, o que equivale a uns 130 reais, eu acho. entrar com a quantia mínima numa mesa é normalmente suicídio, visto que seus oponentes com muito mais fichas vão normalmente te obrigar a ficar em all-in em todas as mãos. enfim, era o que eu tinha e o que eu podia fazer. e as outras pessoas da mesa realmente tinham uma quantidade assustadora de dinheiro em jogo.
comecei muito bem, ganhei várias mãos e percebi que nenhum deles jogava muito bem. já tinha praticamente triplicado minhas fichas iniciais e estava imaginando que ia sair daquele cassino rico, com dinheiro transbordando dos bolsos. foi quando resolvi blefar na hora errada. o adversário tinha um par de áses e só pagou todas as minhas apostas, sem aumentar nenhuma. me pegou, realmente. direitinho. voltei pra um pouco menos que o meu dinheiro inicial. resolvi ir embora antes que as coisas piorassem. acho que errei. quase com certeza errei.
saí na rua. nevava pra caralho e era começo de madrugada. num canto, uma mulher sentada, gordinha, uns quarenta anos me pediu um cigarro. eu dei.
do you want sex?
no, thanks.
a blowjob?
no, thanks.
no, thanks.
a blowjob?
no, thanks.
meus pés realmente doíam demais. andar tinha se tornado uma tarefa muito complicada. mas a madrugada só começava e eu esperava realmente ir fundo naquela cidade.
um bar de esquina, bem vagabundo. vazio. nenhuma alma. entrei e perguntei quais cervejas eles tinham. só budweiser. não a tcheca, a americana. fui embora.
andei mais e cheguei numa rua cheia de puteiros. a maioria deles parecia muito cara, muito cheia de glamour. não valia a pena.
fui até o fim daquela rua, virei à esquerda, numa outra pequena viela quase sem iluminação, e vi um outro puteiro. esse sim, parecia de bom tom. entrei. dançarinas na casa dos quarenta anos, todas bastante acabadas, com jeito de terem sido muito torturadas pela vida. uma ou outra era mais jovem e bonita. peguei uma mesa de frente pro palco, assim via a melancolia daqueles shows feitos com música brasileira antiga e ruim. pedi uma cerveja. não demorou e uma das garotas veio sentar ao meu lado. uma morena muito bonita também, talvez tanto como a norueguesa. devia ter uns vinte e cinco anos, usava um decote gigantesco e uma saia muito curta, como manda o cenário. era russa. falava muito pouco inglês, a comunicação era difícil, mas conversei um pouco com ela. ofereceu o programa. acabei só dando uns beijos e passando a mão nos lugares necessários. fui embora depois de outra cerveja.
me arrastei pelas ruas daquela cidade linda cobertas de neve enquanto me esforçava pra me locomover de um jeito minimamente decente. era diferente demais das noites daqui. as ruas principais cheias, em frente aos cassinos, em frente aos bares, em frente aos puteiros grandes e caros. as luzes, as construções imponentes. as sombras de todas as guerras e revoluções que já mancharam demais aquele chão.
acordei sem conseguir andar no dia de ir embora. era uma dor sobrenatural. com uma extrema dificuldade, fui até o ponto de ônibus e cheguei ao aeroporto. perdi o avião, não tinha como me mover numa velocidade aceitável. fui direto pro ambulatório. meus pés em carne viva, com um cheiro horroroso. jogaram as minhas meias no lixo, desinfetaram tudo, encheram de gase, de medicamentos, me deram meias novas. setecentas coroas tchecas. mais que eu perdi no cassino, mais do que me custaria a russa. com certeza teriam sido dois investimentos bem melhores do meu dinheiro.
saí de lá ainda com muita dor e comprei um postal pra garota pela qual meu coração batia mais forte na época. escrevi que era a cidade mais incrível do mundo, que tinham sido dias ótimos, mas que mandar aquele postal pra ela foi o que realmente fez eu vencer a dor nos pés e chegar até ali, no aeroporto, pra voltar pra roma. chamei ela pra sair assim que eu voltasse pro brasil, no mesmo lugar que tínhamos ido antes de eu ir embora.
nós nunca mais saímos depois que eu voltei.
mas eu garanto que logo, logo verei de novo aquela cidade. sem dor nos pés. e vou recuperar meu dinheiro no cassino. e vou terminar de ver o museu do castelo. e vou ter outras pessoas pra mandar postais.
vídeo feito na karluv most, ponte que liga as duas partes da cidade, num final de tarde.

4 outros delírios:
Gosto do frio, dos detalhes...
Belo texto!
O desfecho denunciando sua sensibilidade. Gostei do conto!
Nunca viajei para o exterior e gostaria muito de conhecer uma cidadse tão linda como a que você descreveu.
Abraços.
eu já ia falar que gostaria de viajar pro exterior e lembrei que já fiz isso, ops! mas, ok, nenhuma das minhas histórias rende um relato tão vivo quanto esse que tu fez.
já tinha clicado no teu link através dos comentários no blog da Anna, li alguns textos, gostei da sua percepção de mundo, mas nem comentei, fui embora. daí fiquei feliz pela coincidência quando seu nome apareceu nos comentários do meu blog ;)
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