sábado, 14 de maio de 2011

dos primeiros raios

Come streaming in on sunlight wings a million bright ambassadors of morning

minha mãe diz que, quando eu tinha três anos de idade, era impossível me fazer dormir cedo. enquanto houvesse qualquer pessoa acordada pela casa, eu continuaria ao lado dela, não importa qual fosse o motivo dela permanecer lutando contra o sono. duas da manhã, hora de uma criança dessa idade estar na cama, certo? não pra mim.

com o tempo, a situação foi simplesmente piorando. talvez o ponto principal tenha sido quando, ali pelos onze anos, meu quarto passou a ser equipado com televisão e internet. a escola não era mais importante, acordar às seis era um mero detalhe. varava a madrugada assistindo qualquer coisa inútil que estivesse disponível em qualquer canal, nem que fosse um programa religioso, e deixava pra dormir ou nas aulas ou na tarde seguinte.

desde essa época, eu posso dizer que nunca fui dormir antes da meia-noite.

mas é na adolescência, ou mais precisamente no começo da vida adulta, que você entende o status de criatura da noite. as festas, os bares, qualquer outro motivo que te faça chegar em casa só com o dia raiando. uma rotina que se inverte completamente. eu nunca consegui pensar de manhã. sou lesado, sou devagar, não consigo conversar com as pessoas, não consigo nem me mover direito. na madrugada, tudo isso se inverte completamente.

eu gosto das manhãs, mas quando eu estou na rua, voltando pra casa, e elas começam a acontecer.

e aí eu vejo os embaixadores da manhã aparecendo no céu, disseminando suas formas pela luz, demonstrando o que é o passar dos dias e do tempo.

até ouço pássaros cantarem enquanto sento em frente à minha casa e acendo o último cigarro. é um momento de reflexão. de tudo que aconteceu nas últimas horas, enquanto tudo era escuro e a lua enchia o lugar por onde agora passam os embaixadores. normalmente, eu tenho motivos para estar tranqüilo. a cama espera, mas talvez eu precise fazer um miojo. tem água, mas talvez eu tome mais uma cerveja. e o despertador só vai me chamar tocando arnold layne ali pelas três da tarde, porque, afinal, eu sou um vagabundo.

e, mais, eu sou uma criatura da noite. só dou um oi e converso por alguns minutos quando a luz começa a tomar conta, porque depois tudo é quente, chato, claro e visível.

boa mesmo é a cumplicidade da escuridão. e quanto menos luzes nos postes, melhor.

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