sábado, 5 de dezembro de 2009

when you're strange

nunca fui uma pessoa essencialmente sociável ou extrovertida. por questões mais obscuras de personalidade, andar sozinho por onde a maioria não andaria deu o tom da minha vida desde que me dou por gente, e isso inclui passar a maioria dos intervalos sozinho na segunda/terceira série, chegar em casa pra ver filmes de terror e outras coisas que as crianças habituais detestariam ou teriam medo. não sei bem se essa é uma definição exata, mas eu sempre gostei da sombra, da margem, de estar onde os demais evitariam estar. e, a partir daí, muitos outros fatores que são fundamentais em mim foram se desenvolvendo.

com o amadurecimento, os anos chegando, o discernimento das coisas e o olhar mais aprofundado sobre o mundo, o "andar sozinho" ganhou novos sentidos. descobri que eu não gostava dos filmes que todos os outros gostavam, muito menos das músicas. não tinha paciência nenhuma para ouvir axé, para me espremer entre milhões de pessoas ouvindo letras ruins e ritmos sem pé nem cabeça. descobri no silêncio o meu refúgio, nas canções lentas e tristes, nos filmes e livros que estudavam e dissecavam lentamente pessoas em seus estados naturais, agindo, sendo seres humanos. longe das corridas de automóveis que nunca levavam a lugar nenhum. longe da luz. longe da simpatia e dos sorrisos fáceis.

apesar disso tudo, eu nunca fui realmente sozinho. descobri que existiam mais pessoas assim, coisa que me ajudou a seguir em frente, e descobri que tinha uma capacidade incrível de expressar em textos ou imagens o que eu sentia e pensava. esses dois fatores combinados me renderam amigos, me renderam mulheres (não que não hajam na classe anterior também - ela é composta principalmente delas. o que muda aqui é o sentido e a relação) e me renderam o que, hoje, é o mais importante de tudo: estórias. estórias que vocês cansam de ler aqui, sempre com a noite como personagem central, sempre com bebida, personagens estranhos e que raramente convivem com o mundo de plástico, o mundo do axé e dos filmes de carros velozes, o mundo da alegria exacerbada e das paisagens globais. estórias que cada vez mais tornam contornos impressionantes até para mim.

então falemos de mais uma noite, uma noite chuvosa, absurdamente chuvosa, sendo que essa chuva já tinha levado embora todas as esperanças dos mortais e o escuro era tanto que os moradores de rua procuravam luzes em postes para enxergar o dia seguinte. eu estava nessa chuva, a água já escorria pelo meu rosto obstruindo minha visão e não sabia onde eu queria chegar. ah, sim, sabia - precisava ir até outra cidade. uma cidade não muito distante, com certeza não uma cidade melhor. talvez, porém, uma cidade onde não estivesse chovendo tanto e onde as pessoas não precisassem ter medo do dia seguinte.

o fato é que caminhei por essa chuva por algum tempo e decidi procurar carona. felizmente, encontrei. felizmente, os personagens que aparecem a seguir tinham o mesmo destino que eu. felizmente, eles renderam esse texto. um deles atendia pela alcunha de "marrom", o outro, particularmente, não me recordo. ao entrar no carro, me apresentei como um escritor que voltava de uma conferência sobre seu livro. eles, sem saber disso, se apresentaram como dois outsiders. praticamente dois beats. e, mais que eu, dois ouvintes de "when you're strange".

no carro, marrom e seu parceiro consumiam cocaína, mesmo dirigindo, e ensaiavam diálogos sobre o glorioso hotel plaza, onde passariam os próximos dias. os alto-falantes traduziam com certa altura o sentimento dos dois em música. as perguntas sobre a vida de escritor continuavam. a chuva continuavam. as perguntas sobre as vidas dos amigos daquela noite continuavam. e assim foi, pelo tempo daquela viagem. ou por quase todo o tempo.

infelizmente, quando as mulheres e seus encantos e seus malefícios já eram o tema central a ser discutido no veículo, o parceiro de marrom começou a sofrer efeitos colaterais fortes: me confundia com um ladrão. insistia que eu estava ali para roubá-lo. insistia que eu estava armado, era perigoso e que ele não sobreviveria àquela noite. se o fim do caminho já não estivesse próximo, eu certamente teria sido expulso do carro e percorrido infinitas milhas a pé, com a chuva escorrendo no meu rosto e obstruindo minha visão, com meus pés obstinados a encerrar mais uma longa estrada.

o que esta figura noturna não sabia é que ele estava certo. eu estava ali para roubá-lo, mas não dinheiro, cartões, jóias ou cocaína. eu estava ali para roubar sua existência e colocar em um texto. estava ali para roubar seus medos, seus olhares assustados, suas falas, sua ausência de sonhos, seu vício, suas falhas, seus desânimos, seus fracassos amorosos, sua quase certa morte precoce. e por mais que eu não tenha precisado falar nada disso aqui, tenho certeza que vocês todos imaginaram.

desci do carro, deixei temporariamente esses dois personagens para trás e liguei a música. jim morrison cantava when you're strange faces come out of the rain. chuva que não parava, escorria pelo meu rosto e obstruia minha visão, mas eu sabia que já tinha mais uma estória para contar e, portanto, a noite tinha sido satisfatória.

*esse texto é uma tentativa de poetizar um conto que, indiscutivelmente, fica muito melhor com cerveja e risadas numa mesa de bar, sem repetições, chuva escorrendo pelo rosto e obstruindo a visão, imitações das pessoas e dos medos de alguém assustado te confundindo com um ladrão. sendo assim, espero que alguns de vocês tenham a oportunidade de conhecer essa versão um dia. grato.

domingo, 22 de novembro de 2009

sobre um homem dito bem-sucedido

algumas pessoas tem a clara necessidade de manter o conforto e a tranquilidade, e esse era um exemplo quase visceral: homem até que inteligente na casa dos trinta anos, muito conhecido por seu talento literário na juventude, resolveu abandonar esse dom para fazer faculdade de direito e somar muito dinheiro. também com muitas namoradas diferentes e até ao mesmo tempo, logo acabou se casando com uma cidadã sem absolutamente nenhuma graça, peitos inexistentes e olhos mal-desenhados, sorriso torto e vício em novelas, sexo uma vez por semana e ciúmes desenfreados. entendam, minhas leitoras, um ou dois desses elementos não faz, de forma alguma, uma mulher desinteressante, mas todos eles conjugados são absolutamente destruidores.

ele vivia sua vida lentamente, os anos passavam sem que nada mudasse - algumas coisas até poderiam mudar, como um escritório do qual ele fosse proprietário, um caso de muito dinheiro, um filho, mas nada que desse novo sentido e essência àquela situação toda. às vezes animava sua vida sexual com uma prostituta, às vezes ia a um bar ver o jogo do seu time com um ou outro colega de trabalho - já que amigos absolutamente não tinha. chegava até ao cúmulo máximo do risco - vejam só! - de tomar três latinhas de cerveja no almoço de domingo na casa da sogra e voltar para casa dirigindo com a esposa e as já duas crias no carro. realmente, um homem de aventuras.

era mais uma tarde de trabalho, com uma chuva batendo de leve na janela do seu escritório e um vento levemente incômodo devido ao barulho que fazia, quando ouviu alguém bater à porta - o próximo cliente, sem dúvidas. no caso, era uma cliente. bem mais que isso - era a cliente. uma loira maravilhosa de vinte e poucos anos, com peitos claramente acima da média e um olhar arrasador, sorriso brilhante e jeito de quem não tinha tempo para novelas, caminhar de quem precisava de sexo vezes ao dia e de todas as formas e que certamente entendia o quanto desnecessário o ciúmes é. ela se sentou ali e começou a expor seus problemas, uma disputa de herança com as irmãs. ele imediatamente aceitou cuidar do problema e, mais que isso, já a convidou para discutir tudo num jantar na noite seguinte.

o que se passou entre os dois foi uma questão de meses e que os leitores claramente podem imaginar. só digo que todas as suspeitas de nosso personagem eram absolutamente corretas, além de outras coisas que ele ficou completamente perdido ao descobrir. a mulher em questão o levou a uma casa de swing, fez com que ele consumisse maconha - que, vejam só, ele não consumia desde os perdidos e comunistas tempos de universitário - e causou inúmeras viagens de trabalho para cidades de todo o brasil e até da américa latina. a pobre esposa já ficava desesperada com isso, mas obviamente, a novela era uma boa companheira.

infelizmente para o nosso advogado, porém, logo que o caso foi resolvido e a herança integralmente entregue à loira fatal, ela desapareceu de seu radar, nunca mais deu nenhuma notícia e nem atendeu um telefonema. ele suspeita que ela tenha ido a algum lugar paradisíaco como uma ilha no pacífico, mas viver de suspeitas é tão inútil quanto a vida que ele levava antes de conhecê-la. as decisões estavam mais que tomadas - ou melhor, nenhuma decisão estava tomada. o que viria daí em diante seria absolutamente desconhecido.

primeiro, comunicou à mulher e aos filhos que estava indo embora e eles nunca mais o veriam nem deveriam procurá-lo. pegou as remunerações conquistadas nos anos de advocacia e começou a gastar em sexo, drogas e pôquer. depois, viagens. depois, cachaça. depois, em nada. não tinha mais nenhum dinheiro, estava perdido, barbudo e com duas ou três peças de roupas em uma cidadezinha qualquer de um país da américa central, sendo que mal falava espanhol. tinha, porém, o que nunca tivera antes: liberdade.

nosso personagem andou então a um boteco, comprou um maço de cigarros com suas últimas moedas e foi andando pela cidade, fumando até o filtro todos aqueles canudos de nicotina e se lamentando ao final de cada um deles. mas, enquanto andava, sorria. sorria por ver dentro do outro lado dos muros as nuvens que antes o cobriam e impediam qualquer pensamento, qualquer reflexão, qualquer olhar sobre a vida. elas estavam dentro dos lares bem-sucedidos, oprimindo as pessoas ditas felizes. ele, por sua vez, não tinha missa no domingo pra ir. ele só tinha as ruas e as sarjetas, nas quais repousam os vômitos dos bêbados e as bitucas queimadas com todas as suas incontáveis porções de sabedoria.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

anúncios

são três - e todos importantes,

a) vários contos que faziam parte deste blog desapareceram. os melhores. os que mais receberam elogios. o motivo é simples, e muito bom - eles foram enviados para uma editora, que simplesmente aceitou publicá-los. farão parte de um livro com uma compilação, chamado "mulheres, noites, músicas e pedaços de sonhos", a ser lançado em alguns meses. isso não significa, porém, que deixarei de postar contos novos aqui. talvez, até pelo contrário. mas conto com o apoio de todos vocês, meus poucos fiéis leitores, para o lançamento!

b) em imagens - curta-metragem com roteiro meu, exibido no último festival de curtas-metragens de são paulo:

http://www.youtube.com/watch?v=tpbWbOMkC_0

c) a partir de sexta-feira, começa a cobertura completa da trigésima terceira mostra internacional de cinema de são paulo no www.cinefilosonline.zip.net - participem, comentem, enfim, o que vocês quiserem. tentarei fazer textos diários, mas a maratona é deveras complicada pra isso às vezes.

quando vocês menos esperarem, retorno com mais um conto, ou anúncios, ou sabe-se lá o que!

PS: só revisando: por pane no sistema do cinéfilos, novo blog pra cobertura da mostra foi criado: criticasmassarianas.blogspot.com

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

amores, noites, jogos e histórias II

nos corredores daquele velho motel, eu andava lentamente, pensando no que me estaria me esperando quando batesse na porta. tudo era de um vermelho tão forte que fazia doer os olhos, com luzes desnecessárias, passagens curtas entre um oceano de portas. gemidos vinham de todos os lados, menos do elevador e das escadas. algumas vezes, talvez até deles.

era sexta-feira e eu tinha recebido uma mensagem rápida, misteriosa, dizendo simplesmente que queria me rever no lugar do último encontro. sabia que era aquela garota do salão de poker que tinha mandado, aquela que certamente mexera muito comigo, pela beleza, pelo jeito único de enxergar o mundo e viver sua vida, pela nossa relação consideravelmente rápida, consideravelmente diferenciada e consideravelmente memorável. o porquê desse pedido agora, porém, era indecifrável. havíamos combinado de não nos encontrarmos mais e de levarmos aqueles dias como se fossem quase imaginários.

bati na porta e foram poucos segundos até ela abrir. a surpresa foi que já estava só de calcinha, e me deu um beijo bastante quente, quase apaixonado, antes que qualquer palavra fosse dita. a partir daí, o mesmo episódio que ocorrera várias vezes naqueles dias passados voltou a ocorrer, e ela esgotou as minhas forças, com todo seu ímpeto e toda sua disposição. eu sabia quem ela era, facilmente. mas não conseguiria nunca entender o que ela queria ou o que sentia.

o fato é que logo me peguei olhando fixamente no espelho, observando nele a disposição de seu corpo, já deitado a meu lado, enquanto as primeiras palavras irrompiam. eram futilidades. ela perguntava da minha vida, dos meus problemas, eu notei que ela fizera uma nova tatuagem, a elogiei e seguiram duas risadas leves, daquelas de canto, que acabam rápido. nos olhamos por algum tempo. tinha a clara impressão de que ela não era mais tão bonita. o rosto era mais fino, os olhos não tinham o mesmo brilho, os peitos e a bunda realmente davam a impressão de ser menores. eu sabia que ela não estava doente e que não havia modificado nada. eu sabia que o problema era comigo.

ela dormiu deitada no meu peito sem que eu precisasse contar nenhuma estória, ao contrário de todas as noites de quando tivemos nossa pequena relação. apagou, com seu corpo quente grudado ao meu, enquanto eu ligava a televisão e procurava por alguma coisa que me distraísse até também pegar no sono. finalmente, achei um jogo de poker. poker que eu jogava e ela assistia quando nos conhecemos. agora eu assistia e ela dormia. logo, eu dormiria também, sentindo a sua presença.

quando acordei, ela não estava mais lá. fora embora da mesma forma que pedira pra me rever. não tínhamos descoberto mais nada um sobre o outro. não tínhamos quebrado nenhuma promessa. não tínhamos causado nem ódio, nem amor, nos mantendo como pessoas quase que do imaginário, mas que nossas lembranças sabiam que era reais. tudo que esse encontro de uma noite, sexo, poucas palavras e olhares perdidos proporcionou foi mais um capítulo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

auto-retrato

e então, carlos massari, olhe no espelho. olhe sem medo, direto nesses teus olhos fundos, e preste atenção:

aí está você, com vinte e um anos na cara. tudo parece extremamente fácil, você não tem absolutamente nada do que reclamar, não? passou no vestibular pra um dos cursos mais concorridos da segunda melhor universidade da américa latina, ganhou um edital na primeira vez que inscreveu um roteiro seu em um, tem vasto repertório sobre cinema e esportes, não tem dificuldades com as mulheres, escreve maravilhosamente bem e pode se considerar uma pessoa livre, que anda por onde quiser e quando quiser. que vida linda, não? tudo absolutamente perfeito.

não. puro engano. trágico, infeliz, desesperador engano. porque tudo, absolutamente tudo, está em milhares de pedaços espalhados pelo chão.

pois veja bem: tudo seria absolutamente perfeito se o seu bendito curso não estivesse sucateado, sem estrutura, lotado de professores e matérias boçais, e, sobretudo, não te agradasse em praticamente nada. se você não se surpreendesse com a limitação acadêmica, com os conceitos fechados e mesquinhos que, no lugar onde teoricamente se produz o conhecimento, reinam com força ainda maior que aquela que já te irritava anos atrás, no ensino médio. seria perfeito se tudo o que você quisesse agora não fosse sair correndo de lá com seu diploma, pelo menos com a recordação de algumas pessoas legais que conheceu e a possibilidade de desenvolver suas reais capacidades.

tudo seria absolutamente perfeito se este edital não fosse de uma prefeitura do interior que, sem nenhuma explicação, resolveu suspender a verba, travando o processo de pós-produção do seu primeiro filme. se isso não tivesse gerado dívidas em uma amiga sua, não tivesse causado uma avalanche de problemas. seria perfeito se você não tivesse que provavelmente enfrentar uma batalha judicial pra tirar o resto do dinheiro, prometido por contrato, e poder finalizar o filme. se você não estivesse praticamente sem saída sobre como agir com tudo isso, agora.

tudo seria absolutamente perfeito se estes repertórios não servissem pra absolutamente nada, a não ser, uma vez por ano, ensinar as regras do futebol americano pra alguém, ganhar alguma miséria com apostas esportivas, explicar o que foi a nouvelle vague francesa e construir roteiros que vão ganhar editais, futuros calotes. seria perfeito se você não se sentisse praticamente maluco por, quando está com a milésima infecção de garganta no mesmo ano, ficasse feliz por estar deitado na cama, com febre, vendo um jogo de beisebol, e não encarando mais uma vez a mesma noite que já te traz calafrios.

tudo seria absolutamente perfeito se a mulher que você amou e dedicou sua vida por mais de três anos não tivesse, poucos dias depois de dizer que não te amava mais, começado a sair com um cidadão sem um milésimo da sua inteligência, cultura, sentimento por ela e milhões de outras coisas que não valem a pena citar aqui. seria perfeito se, depois disso, você não tivesse praticamente excluido a palavra amor da sua vida, passado a ir atrás sempre de mulheres estranhas, em busca de sexo fácil, prazer momentâneo e poucas recordações, sabendo que você iria embora, teria um texto novo para escrever, deitaria na cama e ela, aquela mulher de sempre, voltaria a assombrar seus sonhos.

tudo seria absolutamente perfeito se você não fosse extremamente repetitivo, ficasse sempre em crônicas sobre amores que nunca dão certo, usasse sempre as mesmas palavras e expressões, querendo sempre metaforizar as mesmas coisas. seria perfeito se você tivesse mais de meia dúzia de leitores em um pequeno blog, que às vezes deixam comentários com alguns elogios que, você acredita, são sinceros.

tudo seria absolutamente perfeito se você pudesse realmente largar tudo. ir embora, pra um canto distante do mundo, você e a sua imagem de lobo, de animal selvagem, com os seus pulmões e o seu fígado já tão castigados pela nicotina e pelo álcool, com sua alma já tão castigada pelos sonhos quebrados, pelas promessas que nunca são cumpridas, pelas lembranças que sempre torturam, pelo vento de todas as noites que a corta no meio. seria perfeito se você não tivesse compromissos, lugares para ir, uma vida, um talento para alimentar.

então, meu caro carlos massari, é necessário te dizer: já passou da hora. levante-se, junte esses pedaços e reconstrua tudo. reconstrua cada centímetro da tua vida, mesmo com toda a arrogância e prepotência que te acompanham mundo afora. porque o tempo passa, e a cada segundo, tudo faz menos sentido. então, levante-se. levante-se, olhe para frente, caminhe e chegue onde você quer chegar: muito, muito longe.

sábado, 23 de maio de 2009

ausência

desculpem por ela. crise de inspiração alarmante. várias entradas no blog fechadas antes de se completar um parágrafo.
um dia, ela volta. pode ser amanhã, pode ser daqui há anos. vocês descobrirão.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

às vezes

às vezes, só às vezes, acontece uma ou outra coisa que me faz achar tudo isso tão bonito.

e pra achar tão bonito, eu preciso achar tão feio. e preciso já ter achado tão bonito. e já ter achado tão feio antes. é meio paradoxal, eu sei, mas é necessário.

dois anos atrás eu tinha uma vida amorosa teoricamente perfeita, mas nenhuma perspectiva artística/profissional, meus dias eram atolados por um cursinho besta, meu time era incapaz de fazer qualquer coisa útil e outra centena de tragédias paralelas.
então, o tempo passa, e em dois dias você, primeiro, ganha dezoito mil reais no primeiro projeto de incentivo à cultura que se inscreveu, e no dia seguinte vê seu time ter uma das vitórias mais impressionantes da história do futebol, e sabe que pode mandar a faculdade ir tomar no cu a qualquer momento pra beber e fumar eternamente num bar ao lado dela, com seus amigos, comemorando os fatos. ao mesmo tempo que sua vida amorosa ruiu e há um bom tempo não existe mais.

e sabe, o bonito disso tudo não é você ter ganho seu projeto, não é você ter amado alguém, não é você poder encher a cara. o bonito disso tudo é que essas coisas simplesmente não podem coexistir. que felicidade plena é uma lenda. que nas maiores alegrias, sempre há uma tragédia por trás. mas você está lá, rindo, e tremendo, e com a tensão gostosa de qualquer uma dessas situações. sem nunca saber o porque.

esse texto não tem absolutamente nada a ver com o blog. não é uma crônica, não é profunda, não é nada.
eu simplesmente precisava dizer isso.
que às vezes, só às vezes, eu consigo ver um mínimo de beleza nisso tudo. e sorrir de canto de boca às três horas da manhã de uma quinta-feira de abril.

domingo, 26 de abril de 2009

um ano.

um ano de crônicas massarianas.

um ano de centenas de amores que deram errado. um ano de infinitas viagens de ônibus. um ano com rocks dos anos sessenta e setenta sendo repetidos incessantemente. um ano de melancolia. um ano de palavras que tentam ser poéticas, mas no fundo, são tão vazias quanto seu autor. um ano de experimentos ocasionais. um ano de mágoas em forma de textos. um ano de pessimismo. um ano de olhares constantes para o mesmo lugar. um ano de promessas quebradas. um ano de passados que insistem em viver. um ano de sentimentos mortos que, na verdade, nunca estão realmente mortos.

um ano de alguns poucos amores que deram errado. um ano de infinitas viagens de ônibus. um ano com rocks dos anos sessenta e setenta sendo repetido incessantemente. um ano de melancolia. um ano de tardes filosofando palavras vazias, ou engraçadas, ou desesperadoras, em bares aleatórios. um ano de passos razoavelmente calculados. um ano de mágoas exprimidas nas mais diversas formas. um ano de olhares constantes para os mais diversos lugares. um ano de promessas quebradas. um ano de passados que insistem em viver. um ano de sentimentos mortos que, na verdade, nunca estão realmente mortos.

um ano de vermute. um ano de iguarias preferidas por uma garota do passado. um ano de marteladas. um ano de alegrias em verde e branco. um ano de promessas quebradas. um ano de relatos cinematográficos. um ano de infinitas viagens de ônibus. um ano de casais perfeitos que nunca se falariam. um ano de casais errados que se amavam. um ano de objetos que contam uma história. um ano de contos sobre amor, noite e música. um ano de casais que se escondem do destino. um ano de cavaleiros solitários. um ano de vidas sem sentido. um ano de dolorosas lembranças escritas quase com sangue sobre amores perdidos.

um ano de solidão. um ano de perdas. um ano de olhares constantes para o mesmo lugar. um ano de chopp e vinho e cerveja e vodka em bares aleatórios. um ano de noites tristes em rodoviárias. um ano de guerra interna e externa. um ano de mentiras por causa de necessidades egoístas. um ano de quase nenhum amor verdadeiro. um ano de quase nenhuma perspectiva nos quase nenhum amores verdadeiros. um ano de mulheres erradas nas tardes erradas. um ano de mulheres erradas nas tardes certas. um ano de mulheres erradas nas noites erradas. um ano de mulheres erradas nas noites certas. um ano de cigarros filados de francesas em festas confusas. um ano de cigarros no mesmo banco com a mesma publicidade. um ano de cervejas que são o conforto da alma.

um ano de crônicas massarianas.

porque a intenção deste blog é contar histórias. sejam elas falsas ou verdadeiras. sejam elas inspiradas ou não na realidade. sejam elas livres para tomar seus próprios caminhos ou não.

e que agora, muitas outras histórias surjam - não só aqui, mas sobretudo, na tela, em tons de sépia e acinzentados, com homens fazendo a barba e fumando cigarros em uma praça escura.

sábado, 7 de março de 2009

confessionário

poucas pessoas conseguem entrar em um mundo composto por palavras, referências e lembranças, sentar-se, observar tudo com calma e transformar isso em textos com sentido ou imagens. essa é normalmente a minha intenção quando eu venho aqui, e sei que uma meia dúzia de pessoas acompanha essa tentativa quase mensal de me retratar ou de viajar em outros universos de sensações e pensamentos e traduzi-los nesse pequeno canto. quando eu sento em frente à minha mesa e coloco meus dedos sujos com todas as idéias que acabarão aqui nos teclados, praticamente faço um trabalho de purificação.

é como se este blog fosse um padre rezando uma missa pela minha alma. com os salmos sendo o que eu realmente passei. com os provérbios sendo o que eu inventei. com o apocalipse sendo a junção de tudo, culminando nesta montanha de poeira, quase violenta, quase romântica, quase exploradora, quase alentadora, que é o ato de expôr toda uma ânsia de liberdade em alguns parágrafos. pode não servir para alguma coisa, mas trata-se da fé na representação e no poder de uma linguagem e de um mito.

vocês nunca saberão o que é verdade entre todas essas mulheres, bebidas, cigarros, noites, músicas e viagens que já foram retratadas por aqui, e entre todas as outras que ainda serão. mas no fundo, talvez nem eu saiba. agora mesmo, eu estou olhando pela minha janela, vendo o céu terrivelmente cinza, encoberto em alguns pontos por algumas árvores e por um terminal de ônibus que fica próximo à minha casa. os barulhos são sobretudo desses ônibus, indo para os mais diversos locais dentro da minha cidade interiorana. nada me impediria de criar uma história sobre isso. nada me impediria de falar de uma mulher com semblante triste, esperando a hora de voltar para casa após mais um dia de trabalho numa loja de calçados. nada me impediria de conhecê-la.

cada dia e cada noite que passam deixam marcas ímpares. até mesmo cada dèja vu que se tem, no final, é ímpar. cada simples criatura neste planeta existe para ser ímpar. eu escolhi isso aqui, escrever, contar histórias, filmar histórias, me envolver com as mulheres erradas nas noites erradas, seguir os caminhos que só me levariam aos lugares errados, tomar as bebidas e fumar os cigarros nos dias errados. vinte e um anos depois, ainda estou aqui, vivo, e meu coração pulsa esperando pela próxima história que poderei contar. seja inventada, seja absolutamente real. até que isso aconteça, eu acendo as velas e espero o padre.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

cinzas

www.curtacinzas.blogspot.com

no endereço acima, crônicas sobre ele, o protagonista de cinzas.

neste blog aqui, continuam crônicas sobre todos os outros meus pedaços.