com o amadurecimento, os anos chegando, o discernimento das coisas e o olhar mais aprofundado sobre o mundo, o "andar sozinho" ganhou novos sentidos. descobri que eu não gostava dos filmes que todos os outros gostavam, muito menos das músicas. não tinha paciência nenhuma para ouvir axé, para me espremer entre milhões de pessoas ouvindo letras ruins e ritmos sem pé nem cabeça. descobri no silêncio o meu refúgio, nas canções lentas e tristes, nos filmes e livros que estudavam e dissecavam lentamente pessoas em seus estados naturais, agindo, sendo seres humanos. longe das corridas de automóveis que nunca levavam a lugar nenhum. longe da luz. longe da simpatia e dos sorrisos fáceis.
apesar disso tudo, eu nunca fui realmente sozinho. descobri que existiam mais pessoas assim, coisa que me ajudou a seguir em frente, e descobri que tinha uma capacidade incrível de expressar em textos ou imagens o que eu sentia e pensava. esses dois fatores combinados me renderam amigos, me renderam mulheres (não que não hajam na classe anterior também - ela é composta principalmente delas. o que muda aqui é o sentido e a relação) e me renderam o que, hoje, é o mais importante de tudo: estórias. estórias que vocês cansam de ler aqui, sempre com a noite como personagem central, sempre com bebida, personagens estranhos e que raramente convivem com o mundo de plástico, o mundo do axé e dos filmes de carros velozes, o mundo da alegria exacerbada e das paisagens globais. estórias que cada vez mais tornam contornos impressionantes até para mim.
então falemos de mais uma noite, uma noite chuvosa, absurdamente chuvosa, sendo que essa chuva já tinha levado embora todas as esperanças dos mortais e o escuro era tanto que os moradores de rua procuravam luzes em postes para enxergar o dia seguinte. eu estava nessa chuva, a água já escorria pelo meu rosto obstruindo minha visão e não sabia onde eu queria chegar. ah, sim, sabia - precisava ir até outra cidade. uma cidade não muito distante, com certeza não uma cidade melhor. talvez, porém, uma cidade onde não estivesse chovendo tanto e onde as pessoas não precisassem ter medo do dia seguinte.
o fato é que caminhei por essa chuva por algum tempo e decidi procurar carona. felizmente, encontrei. felizmente, os personagens que aparecem a seguir tinham o mesmo destino que eu. felizmente, eles renderam esse texto. um deles atendia pela alcunha de "marrom", o outro, particularmente, não me recordo. ao entrar no carro, me apresentei como um escritor que voltava de uma conferência sobre seu livro. eles, sem saber disso, se apresentaram como dois outsiders. praticamente dois beats. e, mais que eu, dois ouvintes de "when you're strange".
no carro, marrom e seu parceiro consumiam cocaína, mesmo dirigindo, e ensaiavam diálogos sobre o glorioso hotel plaza, onde passariam os próximos dias. os alto-falantes traduziam com certa altura o sentimento dos dois em música. as perguntas sobre a vida de escritor continuavam. a chuva continuavam. as perguntas sobre as vidas dos amigos daquela noite continuavam. e assim foi, pelo tempo daquela viagem. ou por quase todo o tempo.
infelizmente, quando as mulheres e seus encantos e seus malefícios já eram o tema central a ser discutido no veículo, o parceiro de marrom começou a sofrer efeitos colaterais fortes: me confundia com um ladrão. insistia que eu estava ali para roubá-lo. insistia que eu estava armado, era perigoso e que ele não sobreviveria àquela noite. se o fim do caminho já não estivesse próximo, eu certamente teria sido expulso do carro e percorrido infinitas milhas a pé, com a chuva escorrendo no meu rosto e obstruindo minha visão, com meus pés obstinados a encerrar mais uma longa estrada.
o que esta figura noturna não sabia é que ele estava certo. eu estava ali para roubá-lo, mas não dinheiro, cartões, jóias ou cocaína. eu estava ali para roubar sua existência e colocar em um texto. estava ali para roubar seus medos, seus olhares assustados, suas falas, sua ausência de sonhos, seu vício, suas falhas, seus desânimos, seus fracassos amorosos, sua quase certa morte precoce. e por mais que eu não tenha precisado falar nada disso aqui, tenho certeza que vocês todos imaginaram.
desci do carro, deixei temporariamente esses dois personagens para trás e liguei a música. jim morrison cantava when you're strange faces come out of the rain. chuva que não parava, escorria pelo meu rosto e obstruia minha visão, mas eu sabia que já tinha mais uma estória para contar e, portanto, a noite tinha sido satisfatória.
*esse texto é uma tentativa de poetizar um conto que, indiscutivelmente, fica muito melhor com cerveja e risadas numa mesa de bar, sem repetições, chuva escorrendo pelo rosto e obstruindo a visão, imitações das pessoas e dos medos de alguém assustado te confundindo com um ladrão. sendo assim, espero que alguns de vocês tenham a oportunidade de conhecer essa versão um dia. grato.
