enquanto a nova versão do blog não fica pronta, mais um texto diferenciado - esse é mais um desabafo que qualquer outra coisa.
eu sempre fui um absoluto poço de irresponsabilidade e nunca me importei com isso. é uma dessas questões de sangue, que habitam em você e te fazem ser de um jeito irreversível. não que nunca tenha destruído relacionamentos, me causado apuros gravíssimos ou me feito perder dinheiro que eu não tinha. não que uma dezena de garrafas de cerveja não esteja empilhada ao lado da minha cama nesse momento porque eu simplesmente não ligo pro fato dela estar ali e não faço o mínimo esforço pra pelo menos colocá-la em cima da pia. mas o fato é, eu sou assim, fazer o quê?
e aí são vinte e três anos e a reta final da faculdade. daqui a seis meses eu saio do mundo dos universitários e entro pro mundo oficial dos trabalhadores. claro, sempre é possível explodir como escritor, cineasta, jogador de pôquer, produtor de filmes pornôs, pastor ou artista moderno até lá e evitar que a vida medíocre e rotineira me assole diariamente e destrua a maioria das coisas que eu ainda gosto de fazer, mas essa é uma possibilidade utópica. não porque tudo isso seja inalcançável, mas porque a minha falta de responsabilidade não deixa.
basicamente, existe esse projeto de curta-metragem que é o meu último trabalho na faculdade, uma espécie de tcc, apesar de não ser exatamente isso. eu sou um criador megalomaníaco, o que faz com que ele seja totalmente inviável com os equipamentos de uma universidade pública. eu sei disso, e eu sempre soube, mas na minha cabeça sempre foi um detalhe irrisório perto do meu ego, do meu orgulho e da absoluta certeza que eu tenho da minha capacidade de realizá-lo. com dinheiro, é claro.
dinheiro se ganha com editais ou patrocínios. muito mais provável que seja com a primeira opção. fui lá e fiz o que mais nenhum aluno do curso pensou em fazer, inscrever o projeto num programa de incentivo fiscal do governo do estado de são paulo. duas fases. recebi um e-mail dizendo que a primeira tinha sido aprovada, com um login e uma senha pra encaminhar a parte final e decisiva em busca do ouro. resultado?
eu esqueci. abri só hoje o glorioso site e me deparei com envio de projetos até 6 de junho. suicídio, aí vamos nós?
os semestres da faculdade tem se tornado mais e mais destrutivos com o passar do tempo e nesse daqui, o penúltimo, eu tenho saído e voltado bêbado pra casa de madrugada praticamente todos os dias. qualquer vestígio de vida saudável já desapareceu, sendo que minhas duas opções de janta são ou x-bacon no trailer-boteco em uma praça aqui perto ou lasanha de microondas. só ando de óculos escuros pra esconder as olheiras. tenho vários telefones de garotas na agenda do meu celular que eu nunca liguei e nem lembro do rosto. e assim segue.
até quando? provavelmente esquecer do edital que podia tornar seu filme realizável e resolver sua vida seja passar de todos os limites. mas eu já tinha pensado nisso quando fui preso na itália por disturbar a paz.
é engraçado que, depois de tudo isso, hoje provavelmente foi a primeira quinta-feira em muitos meses que eu não fui em nenhuma festa. fiquei em casa, vendo meu time de baseball tomar uma surra e saindo a cada quinze minutos pra fumar um cigarro. e recebi um sms da minha mãe, ali pela meia-noite, que dizia não vai sair sem agasalho hoje, hein. a vida não é incrivelmente irônica?
mas eu nunca tive responsabilidade entre as minhas qualidades. já cansei de ouvir você é uma pessoa incrivelmente doce - e provavelmente é verdade quando se trata de alguém que eu me importe de verdade - mas eu acho que esses adjetivos sempre se anulam. e, no fim, não adianta, as garrafas vão continuar se empilhando.
esse é um tipo de texto que não se costuma ver por aqui, mas levando-se em conta que, a) é o último antes do blog sofrer mudanças radicais em toda sua estrutura e, b) precisava dizer isso em algum lugar, vamos em frente:
não preciso explicar pra ninguém que no último final de semana aconteceria em são paulo a famosa marcha da maconha, mas que após uma proibição judicial ela acabou sendo maquiada e transformada em uma marcha pela liberdade de expressão. nem que esse protesto - pacífico - acabou sendo violentamente reprimido pela muito bem-preparada (alerta de ironia) polícia do estado de são paulo.
não vou também entrar nos méritos de que essa é uma marcha organizada puramente pela classe média, universitários que nunca tiveram falta de alimento na vida e lutam pelo seu direito de fumar um baseado enquanto o mundo tem questões infinitamente mais importantes a se resolver. como disse o rapper GOG, antes de pensar em legalizar a droga tem que legalizar o arroz e feijão. nem na fragilidade de um movimento que é tão sem culhões que foge da polícia assim que ela aparece.
o importante é a repressão. um protesto em defesa de alguma coisa, uma voz, uma palavra que requer um direito, uma manifestação jamais pode ser reprimida. e não faz a mínima diferença o que ela - enquanto de forma pacífica - defenda.
e então, o argumento da direita reacionária: não foi repressão, estávamos apenas defendendo a democracia.
pois bem: eu sempre me considerei uma pessoa de extrema esquerda, a favor de absolutamente tudo ser legalizado, de adoção de crianças por casais gays a aborto, de drogas a qualquer outra coisa que você imagine, além de todas as outras idéias tradicionais de esquerdistas de universidade que todos estão cansados de ouvir. o problema é quanto a esquerda usa o mesmo discurso reacionário da direita e acha que isso está certo.
mais ou menos um mês atrás, houve um show de uma banda em uma festa da unicamp, em um lugar onde tantas outras festas épicas já aconteceram. dessa vez, um problema aconteceu: a organização do evento retirou o microfone da banda e impediu que ela continuasse tocando após ter considerado uma letra homofóbica. apesar dos protestos de todo o público presente, a decisão estava tomada. a decisão de reprimir.
questionada, o que disse a organização da festa? não foi repressão, estamos apenas defendendo a democracia.
não vou entrar nos méritos de que a letra não tem absolutamente nada de homofóbica, nem de que aquele é um espaço onde todos tem a capacidade de refletir sobre o que consideram certo ou errado em sua formação universitária e, em grande maioria, humanística. não faz a mínima diferença. o fundamental é: houve repressão.
o que eu quero dizer com isso tudo? simples. que buscar um mundo justo, igualitário e democrático sendo que, quando se tem o poder também se reprime, é de uma hipocrisia atroz. não adianta lutar para que sua voz não seja calada quando também se cala a voz alheia na primeira oportunidade. a briga é pela liberdade de todos, não apenas pela liberdade que convém.
me assusta ver quem luta por liberdade agindo dessa forma. a direita reacionária todos nós conhecemos, os universitários que lutam contra ela deveriam ser a esperança. mas, aparentemente, são todos iguais.
fica o meu manifesto por um mundo no qual todos possam opinar, marchar, cantar e defender o que quiserem, seja as drogas, seja a prostituição, seja o comunismo, seja o nazismo. e que não importa se você é branco, negro, heterossexual ou homossexual, a lei se aplica da mesma forma. sem especialidades. uma só lei, não leis diferentes.
mas que, sendo isso impossível, ao menos não se combata repressão com mais repressão, nem exclusão com mais exclusão.
o ônibus pra roma sairia às seis da manhã e nevava muito. muito, mesmo. uma tempestade e centímetros e mais centímetros no chão. só tinha um par de tênis, que por sinal não era dos mais adequados pra situação. meus pés afundavam conforme eu andava rápido e a neve ia entrando pelas beiradas, deixando as meias encharcadas. eu não teria como trocá-las por um tempo considerável. péssimo sinal, péssima notícia.
mas acabei esquecendo disso. peguei o avião no aeroporto de roma e logo estava vendo aquela maravilha debaixo de mim enquanto o pouso começava a ser executado. praga. acho que nenhuma cidade eu tinha sonhado tanto em conhecer. horas e horas no google vendo fotos da arquitetura, dos prédios, lendo sobre os museus, sobre as cervejas, sobre a vida noturna. e de repente, eu estava lá. a cidade também coberta de neve, menos oito graus nos termômetros. um mapa na mão e um albergue pra chegar. dois dias pela frente pra explorar o máximo possível.
o começo foi difícil. não fazia idéia de como chegar no albergue, não falava uma palavra de tcheco - não falo até hoje, claro. perguntei - obviamente em inglês - pra uma moça em frente a uma estação de metrô e ela foi de uma simpatia inacreditável, praticamente me conduzindo até a plataforma onde eu deveria ir e explicando cada mínimo detalhe da jornada que eu teria pela frente. era de belarus. não faço a mínima idéia do gentílico de alguém que nasce em belarus.
então, veio a primeira noite. eu e o amigo que tinha viajado comigo escolhemos um bar no guia da cidade e resolvemos ir até ele. beber a melhor e mais pura cerveja tcheca, por favor. mas antes mesmo, no caminho, encontramos um grupo de pessoas andando sem rumo pelas ruas e trocamos nomes e nacionalidades. o grupo era composto por noruegueses, predominantemente, mas também tinha um macedônio, um grego e mais outras coisas que eu não vou nunca me lembrar. uma das norueguesas era uma morena muito bonita. o suficiente pra nos juntarmos ao movimento.
a idéia excepcional era andar de bar em bar. em cada bar, uma cerveja, e então o próximo. o mais perto do anterior. passamos por vários bares até chegar no destino final, já umas quatro da manhã, que era uma espécie de discoteca, com uma longa pista de dança e algumas mesinhas daquelas acolchoadas num canto afastado. todos os demais foram pra pista e eu fiquei ali bebendo com a norueguesa bonita. ela me falou que não fumava, só chupava pastilhas de nicotina. eu pedi uma e experimentei. era muito ruim. falamos sobre a noruega, falamos sobre o brasil. falamos sobre ser um escritor. acabou sendo uma noite excelente, e isso é bem mais singelo do que vocês podem estar pensando.
obviamente, eu não lembro o nome dela. não lembro nem os nomes das brasileiras que conheço pela noite, de uma norueguesa seria bem mais difícil.
e eu não tinha tido tempo de tirar o tênis o dia todo. meus pés doíam muito na hora de voltar pro albergue. devia ter acontecido algo de errado.
as tardes eu aproveitava pra conhecer os museus e os pontos turísticos, tirar fotos da cidade, comer os pratos típicos. fui no museu do comunismo, no de tortura medieval. mas o principal é o do castelo de praga, que era a sede do reino da boêmia. um verdadeiro e real castelo medieval, intacto, com várias lembranças e objetos de séculos e mais séculos atrás.
o problema foi que eu cheguei atrasado por lá e não tive tempo de ver tudo. fui comunicado na metade do percurso que estava fechando e eu tinha que sair. porra.
na segunda noite, meu amigo, que era gay, desapareceu. mais tarde eu descobriria que ele conhecera um tcheco e deve ter passado o resto do tempo em pura diversão carnal. ótimo pra ele. mas eu aproveitei pra me afundar de verdade na noite daquela cidade.
fui num cassino. o valor mínimo pra se jogar pôquer era 1400 coroas tchecas, o que equivale a uns 130 reais, eu acho. entrar com a quantia mínima numa mesa é normalmente suicídio, visto que seus oponentes com muito mais fichas vão normalmente te obrigar a ficar em all-in em todas as mãos. enfim, era o que eu tinha e o que eu podia fazer. e as outras pessoas da mesa realmente tinham uma quantidade assustadora de dinheiro em jogo.
comecei muito bem, ganhei várias mãos e percebi que nenhum deles jogava muito bem. já tinha praticamente triplicado minhas fichas iniciais e estava imaginando que ia sair daquele cassino rico, com dinheiro transbordando dos bolsos. foi quando resolvi blefar na hora errada. o adversário tinha um par de áses e só pagou todas as minhas apostas, sem aumentar nenhuma. me pegou, realmente. direitinho. voltei pra um pouco menos que o meu dinheiro inicial. resolvi ir embora antes que as coisas piorassem. acho que errei. quase com certeza errei.
saí na rua. nevava pra caralho e era começo de madrugada. num canto, uma mulher sentada, gordinha, uns quarenta anos me pediu um cigarro. eu dei.
do you want sex? no, thanks. a blowjob? no, thanks.
meus pés realmente doíam demais. andar tinha se tornado uma tarefa muito complicada. mas a madrugada só começava e eu esperava realmente ir fundo naquela cidade.
um bar de esquina, bem vagabundo. vazio. nenhuma alma. entrei e perguntei quais cervejas eles tinham. só budweiser. não a tcheca, a americana. fui embora.
andei mais e cheguei numa rua cheia de puteiros. a maioria deles parecia muito cara, muito cheia de glamour. não valia a pena.
fui até o fim daquela rua, virei à esquerda, numa outra pequena viela quase sem iluminação, e vi um outro puteiro. esse sim, parecia de bom tom. entrei. dançarinas na casa dos quarenta anos, todas bastante acabadas, com jeito de terem sido muito torturadas pela vida. uma ou outra era mais jovem e bonita. peguei uma mesa de frente pro palco, assim via a melancolia daqueles shows feitos com música brasileira antiga e ruim. pedi uma cerveja. não demorou e uma das garotas veio sentar ao meu lado. uma morena muito bonita também, talvez tanto como a norueguesa. devia ter uns vinte e cinco anos, usava um decote gigantesco e uma saia muito curta, como manda o cenário. era russa. falava muito pouco inglês, a comunicação era difícil, mas conversei um pouco com ela. ofereceu o programa. acabei só dando uns beijos e passando a mão nos lugares necessários. fui embora depois de outra cerveja.
me arrastei pelas ruas daquela cidade linda cobertas de neve enquanto me esforçava pra me locomover de um jeito minimamente decente. era diferente demais das noites daqui. as ruas principais cheias, em frente aos cassinos, em frente aos bares, em frente aos puteiros grandes e caros. as luzes, as construções imponentes. as sombras de todas as guerras e revoluções que já mancharam demais aquele chão.
acordei sem conseguir andar no dia de ir embora. era uma dor sobrenatural. com uma extrema dificuldade, fui até o ponto de ônibus e cheguei ao aeroporto. perdi o avião, não tinha como me mover numa velocidade aceitável. fui direto pro ambulatório. meus pés em carne viva, com um cheiro horroroso. jogaram as minhas meias no lixo, desinfetaram tudo, encheram de gase, de medicamentos, me deram meias novas. setecentas coroas tchecas. mais que eu perdi no cassino, mais do que me custaria a russa. com certeza teriam sido dois investimentos bem melhores do meu dinheiro.
saí de lá ainda com muita dor e comprei um postal pra garota pela qual meu coração batia mais forte na época. escrevi que era a cidade mais incrível do mundo, que tinham sido dias ótimos, mas que mandar aquele postal pra ela foi o que realmente fez eu vencer a dor nos pés e chegar até ali, no aeroporto, pra voltar pra roma. chamei ela pra sair assim que eu voltasse pro brasil, no mesmo lugar que tínhamos ido antes de eu ir embora.
nós nunca mais saímos depois que eu voltei.
mas eu garanto que logo, logo verei de novo aquela cidade. sem dor nos pés. e vou recuperar meu dinheiro no cassino. e vou terminar de ver o museu do castelo. e vou ter outras pessoas pra mandar postais.
vídeo feito na karluv most, ponte que liga as duas partes da cidade, num final de tarde.
Come streaming in on sunlight wings a million bright ambassadors of morning
minha mãe diz que, quando eu tinha três anos de idade, era impossível me fazer dormir cedo. enquanto houvesse qualquer pessoa acordada pela casa, eu continuaria ao lado dela, não importa qual fosse o motivo dela permanecer lutando contra o sono. duas da manhã, hora de uma criança dessa idade estar na cama, certo? não pra mim.
com o tempo, a situação foi simplesmente piorando. talvez o ponto principal tenha sido quando, ali pelos onze anos, meu quarto passou a ser equipado com televisão e internet. a escola não era mais importante, acordar às seis era um mero detalhe. varava a madrugada assistindo qualquer coisa inútil que estivesse disponível em qualquer canal, nem que fosse um programa religioso, e deixava pra dormir ou nas aulas ou na tarde seguinte.
desde essa época, eu posso dizer que nunca fui dormir antes da meia-noite.
mas é na adolescência, ou mais precisamente no começo da vida adulta, que você entende o status de criatura da noite. as festas, os bares, qualquer outro motivo que te faça chegar em casa só com o dia raiando. uma rotina que se inverte completamente. eu nunca consegui pensar de manhã. sou lesado, sou devagar, não consigo conversar com as pessoas, não consigo nem me mover direito. na madrugada, tudo isso se inverte completamente.
eu gosto das manhãs, mas quando eu estou na rua, voltando pra casa, e elas começam a acontecer.
e aí eu vejo os embaixadores da manhã aparecendo no céu, disseminando suas formas pela luz, demonstrando o que é o passar dos dias e do tempo.
até ouço pássaros cantarem enquanto sento em frente à minha casa e acendo o último cigarro. é um momento de reflexão. de tudo que aconteceu nas últimas horas, enquanto tudo era escuro e a lua enchia o lugar por onde agora passam os embaixadores. normalmente, eu tenho motivos para estar tranqüilo. a cama espera, mas talvez eu precise fazer um miojo. tem água, mas talvez eu tome mais uma cerveja. e o despertador só vai me chamar tocando arnold layne ali pelas três da tarde, porque, afinal, eu sou um vagabundo.
e, mais, eu sou uma criatura da noite. só dou um oi e converso por alguns minutos quando a luz começa a tomar conta, porque depois tudo é quente, chato, claro e visível.
boa mesmo é a cumplicidade da escuridão. e quanto menos luzes nos postes, melhor.
seis parece um número emblemático pra esse dia. afinal, meu time perdeu por seis a zero. nunca tinha visto isso acontecer antes. não que eu me lembre, pelo menos.
sai do bar já bastante bêbado após ver essa situação tão vexatória. fui a uma festa. fui a outra festa. rodei pela noite. ah, as noites. como elas são fundamentais.
são tão fundamentais que eu cheguei em casa às seis e trinta e seis da manhã. e salvaram minha vida de ter pesadelos com o resultado do meu time. só com o do meu time, porém.
uma loira deliciosa na segunda festa. sem nenhum exagero, que fique claro. realmente, realmente deliciosa. decido chegar usando a cantada que tinha até então cem porcento de aproveitamento na minha vida, a do filme blue valentine. quem já viu, deve reconhecer:
eu tenho uma teoria nessa vida. que é? quanto mais bonita uma garota é, mais louca ela é. isso significa que você deve ser completamente insana.
sorriso.
aproximo a minha boca da dela. tento o movimento derradeiro. ela se esquiva.
então, só tem um problema que é? eu gosto da mesma coisa que você ? de mulher.
porra. porra. porra.
o tempo passa e duas horas depois eu estou com um amigo esperando uma menina que queria dar pra ele com a amiga dela. elas não aparecerem. nós vamos pro posto comer um lanche e beber mais.
enquanto eu estava na itália, costumava sempre tomar uma cerveja alemã chamada aventinus. é escura - e eu raramente gosto de cervejas escuras - e com um gosto muito particular, que se devia ao fato dela ser feita de caldo de nozes, ou avelã, ou banana ou qualquer outra coisa atípica que eu não consigo me lembrar. o problema mais grave era realmente o preço, seis euros, bem acima da média pra uma long neck. mas valia a pena, já que aquele líquido foi minha pequena paixão por um tempo.
sábado, eu acabei encontrando essa cerveja numa loja de bebidas importadas. vinte e sete reais a long neck. com esse dinheiro, eu tomo nove itaipavas da garrafa grande no meu bar de todos os dias.
não comprei, mas fiquei consideravelmente tentado.
esse mês de abril me parece estar mais quente que o do ano passado. lembro de uma semana com duas festas, uma na quarta e uma na quinta, que o tempo tinha caído muito. todo mundo de blusa. eu de blusa, coisa rara por esses lados. dessa vez, não tem como passar um dia sequer sem o ventilador ligado. não tem como dormir sem ele estar ligado. é incrível.
o ventilador é uma grande paixão minha, e não é só por um mês, como a maioria das minhas paixões. ele é necessário por um bom tempo e descartável só por um período mínimo do ano. talvez as paixões sejam medidas pelo quanto elas são descartáveis ou não.
também foi sábado que eu decidi que passaria o dia todo sem fumar. nenhum cigarro. nem comprado, nem filado. passei umas horas angustiado no bar, mas acabei saindo vitorioso. preciso aprender a subjugar e dominar meus vícios e meus erros.
saí do cinema e tinha quatro ligações perdidas no meu celular. eram da menina da festa de quinta passada. lembrei o nome porque ela mesma tinha escrito na agenda do aparelho, mas demorei pra me tocar de quem era. queria sair, eu disse que não podia e que talvez ligue no próximo fim de semana. o engraçado é que absolutamente nenhum dado que ela sabe sobre mim é verdade. só o número de telefone.
talvez meses de abril acabem entrando pra minha lista de pequenas paixões. eles sempre são fantásticos.
claro que eu vou me destruir. sozinho a gente é ridículo. quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. avacalha e se esculhamba.
marcos não sabia bem o que fazer, então convidou aquela garota pra jantar. ela tinha algumas coisas diferentes de todas as outras, uma tatuagem de pássaro na parte lateral da cintura - mulheres tatuadas são infinitamente mais atraentes, fato da humanidade - um sorriso amarelo, coisa de quem fuma muito e não vai no dentista há mais de um ano, e um olhar que absolutamente dizia eu não tenho medo. eu quero. e eu quero muito.
mais que a tatuagem - que deixa as garotas infinitamente mais atraentes, fato da humanidade - o jeito dela era conquistador. e ele mal sabia o nome dela, só tinha decorado o pássaro na sua cabeça a cada noite quando ia dormir, como também o incrível par de pernas. a calça que marcava lindamente a bunda, que o fazia acordar excitado todas as manhãs. e o jeito que ela tragava o cigarro. no canto da boca, com um quê de sarcasmo. quase como dizendo olha, o que você está esperando pra substituir esse meu canudo de nicotina com outra coisa? você sabe que eu gosto mais. você sabe que eu quero. e eu quero muito.
no jantar, ele descobriu que ela se chamava mariana. ele já tinha descoberto isso antes, só não conseguia se lembrar por causa da tatuagem - que deixa as garotas infinitamente mais atraentes, fato da humanidade. mas marcos não era uma boa pessoa e nunca tinha sido. havia levado pra casa um número suficiente de garotas na vida sem ter ligado na manhã seguinte, havia feito um número que a sociedade reprovaria de tatuagens, havia construído um conceito anormal de vida e de moral. só que, ele bem sabia, nenhuma dessas garotas fumava no canto da boca. nenhuma tinha pássaros tatuados - e mulheres tatuadas são muito mais atraentes, fato da humanidade - na região lateral da cintura.
mariana acordou ao lado de marcos, na cama. ela sorria, embora não soubesse o que dizer. deu uma volta por aquele apartamento desconhecido, tomou água e olhou o relógio. oito da manhã. com certeza já havia claridade do lado de fora. com certeza já algumas pessoas se direcionavam ao trabalho. metrô funcionando, ônibus em movimento. escovou os dentes compartilhando a escova, esse fato tão de estamos semi-casados. mas não só não estavam como nem sabiam os sobrenomes um do outro. nem sabiam as datas de nascimento.
muito menos, sabiam os telefones.
marcos não sabia que mariana havia tatuado aquele pássaro para simbolizar a liberdade, porque havia lido essa codificação num site na internet e achado suficientemente bonito e significativo - mas sabia que mulheres tatuadas são muito mais atraentes, fato da humanidade. não sabia que ela nunca tinha namorado, apesar de ser tão bonita e sedutora - e que nem sequer era maior de idade. não sabia que ela gostava de arroz e feijão, que nas festas preferia vodka a cerveja, que não gostava de homens ligeiramente gordos nem de cabelos compridos. não sabia que ela não costumava engolir, tinha aberto uma exceção só pra ele. nem que era a única noite que estava fumando carlton em vez de free.
se ele soubesse, diria mas que porra de mudança é essa? vira gente e fuma direito, caralho. mas quanto a engolir ou não, continue assim, por favor.
mariana não sabia que marcos fumava porque não aguentava os fardos da vida, que queria morrer cedo porque, apesar do número de garotas que já havia levado pra casa, as poucas que tinha conseguido gostar - ou amar, palavra pesada demais - eram pequenas princesas procurando um amor infinito ou ao menos duradouro o suficiente pra que o dinheiro atasse as crenças ímpares dos casais. que eram pequenas princesas incapazes de entender o significado de tatuagens, de óculos escuros, de marcas de bebidas ou, mais importante, de formas de beijar. que eram pequenas princesas que surtavam após finais causados por elas próprias. não sabia que nas festas ele preferia a mais podre cachaça, porque ela também era mais destrutiva. e que ele até fumava cigarros ao contrário nos momentos mais difíceis, soltando a fumaça pelo filtro, porque invariavelmente a morte assim pega muito mais cruelmente.
tinham comido lasanha de quatro queijos, tomado refrigerante - a primeira vez na vida de marcos em tanto tempo que ele nunca saberia dizer - e ido para aquele pequeno apartamento. um apartamento que não era limpado há muito tempo, que tinha teias de aranha, que tinha uma televisão que não saía dos canais de esportes havia meses. ele não gostava de abrir a janela. ele fumava ali dentro, lucky strike red, cigarros de verdade. só tinha cerveja na geladeira, água só vinda da torneira. e uns beijos quentes, mãos nos peitos, mãos na bunda, mãos em todos os lugares. e sexo, ela não era virgem, mas também não era uma das meninas que ele queria desvirginar. ela tinha aquela tatuagem de pássaro na lateral da cintura - e mulheres tatuadas são muito mais atraentes, fato da humanidade.
e na manhã, nada fazia sentido. o gosto de porra na boca de mariana, a vontade de acender um lucky strike red de marcos. e ele deu um pra ela, fume aí, mesmo tendo escovado os dentes com a minha escova (puta que pariu, hein, pensava), vai ajudar. ela fumou, mas tossiu, porque antes era só acostumada com free e, uma vez, carlton. o fato de ela ser uma garota rodada e que engolia não significou nada pra ele - mesmo sem saber de nada da verdade - e o fato de ele ter feito o que ninguém costumava fazer tinha significado muito pra ela. porque porra eu tenho que sair com garotas inexperientes, ele tinha no fundo do cérebro. taí um cara de verdade, jogou tudo na minha garganta, ela tinha no fundo cérebro.
mas não tinham trocado sobrenomes. não tinham trocado nem telefones.
tinham impresso algumas coisas um na cabeça do outro. ele sabia que ela tinha uma tatuagem de pássaro na lateral da cintura - o que deixa as garotas muito mais atraentes - que ela tinha uma puta bunda e que ela engolia. ela sabia que ele fumava lucky strike red, que ele tinha uma casa suja e que ele costumava avançar o sinal.
ele com certeza queria ela de volta na cama dele. ela com certeza gostaria de voltar pra cama dele.
mas não tinham trocado sobrenomes. não tinham trocado nem telefones.
e às dez da manhã, ela foi pra aula. ele deu um foda-se, acendeu um lucky strike red e fumou até o fundo dos pulmões.
vida que passa. amores que nunca seriam. e porra, ela realmente engolia. e ela realmente tinha uma tatuagem na lateral da cintura - o que faz as garotas muito mais atraentes, fato da humanidade.
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1. quem acertar de que filme é o diálogo lá em cima, ganha um "parabéns, você é realmente foda."
2. terceira pessoa e nomes fictícios, né. meus últimos dois textos viscerais em primeira pessoa renderam um "vai se foder" nos comentários. obviamente, deletados. (só porque as pessoas tinham se reconhecido nos textos, claro. se você não sabe quem eu sou e me odeia, mande eu me foder, à vontade.)
3. são cinco e meia da manhã e eu estava bebendo desde às seis da tarde. só pra constar.
4. garotas tatuadas são muito mais atraentes - fato da humanidade.
lembro de ter levado dois tiros, não sei de quem nem o porquê. cai no chão imaginando o que fazer, desesperado, achando que poderia sobreviver. então, aos poucos, o sangue foi se esparramando mais e mais, a dor aumentando, e eu desisti. foi só isso? como será que são as coisas depois daqui? fracassei, simplesmente.
acordei. assustado, porque tinha sido daqueles sonhos extremamente reais, que parecem ser verdade até o último momento. olhei em volta, vi que era minha cama, que era meu quarto. que eu não tinha levado nenhum tiro. e que vinha pela frente mais um dia da minha rotina.
peguei carona com um amigo meu em uma cidade estranha e labiríntica. ele perdeu o controle do carro, subiu em cima de outro, passou e voltou pra estrada, mas desgovernado, pegou a calçada e caiu num rio. as mesmas palavras. as mesmas sensações, antes e depois de voltar à lucidez.
na noite passada foi o pior de todos: eu com certeza estava consideravelmente bêbado e andava cambaleando pelo meio da rua quando derrubei o meu cigarro. abaixei pra pegar e nisso fui atropelado. ainda me arrastei um pouco pelo asfalto, mas estava completamente destruído e quebrado. de novo, eu não queria morrer. e lutava. e, na hora do inevitável, eu acordo e volto ao mundo real. ao meu quarto. à tranquilidade. não foi dessa vez.
eu nunca acreditei no poder de sonhos, que eles possuem alguma coisa de premonição, de sorte ou de realidade. lembro de uma vez ter sonhado que jogava pôquer, tinha uma dama e um dois, ia all-in e ganhava muito dinheiro. eu, que absolutamente nunca jogaria com essa mão, resolvi testar o poder premonitório do sonho e, jogando no dia seguinte, repeti a ação. perdi. perdi sem nenhuma chance.
porém, esse fato de estar continuamente sonhando com a morte tem me incomodado. talvez pelo fato de eu realmente ter medo dela: como ateu, eu não acredito em paraíso, nem em inferno, nem em espíritos, em punições, em mundo eterno, em nada. eu acredito no pó. e eu tenho a teoria de que se morre duas vezes - a primeira, quando seu corpo deixa de ter vida, a segunda, quando os últimos resquícios da sua existência desaparecem da terra. definitivamente. como se você nunca tivesse passado por aqui.
eu ainda não fiz nada digno de nota nesses vinte e três anos de passagem pelo mundo. nada que faria alguém, daqui a 100 anos, saber que eu existi. eu não cuido nem um pouco da minha saúde. bebo todos os dias, fumo pra caralho e bacon é minha refeição favorita. talvez tudo isso seja um aviso. um olha só, carlos, é hora de começar a mudar.
mas eu já acreditei em sonhos uma vez, indo all-in de dama e dois. dessa vez, vou para o outro lado, pensar que eles estão simplesmente errados, sendo irônicos com os meus medos e rindo fundo do meu ateísmo, da minha pressa por fazer algo marcante e dos meus hábitos nada ortodoxos.
demorou quase uma semana pra nevar depois que eu cheguei lá. tinha acabado de sair de um museu, fazia muito mais frio do que nos dias anteriores e eu comecei a perceber aqueles flocos brancos caindo, pintando minha jaqueta preta, fazendo o rosto ficar pouco a pouco gelado. e eu nem pensei duas vezes em reagir como todo brasileiro reage nessa situação - pegar a câmera, tirar fotos, fazer vídeos. esperar as ruas ficarem cobertas pra fazer guerra e tentar escorregar de bunda. até perdi uma calça por causa disso, a tinta toda acabou saindo. acho que valeu a pena.
gostava muito de pegar os trens noturnos. lá escurecia bem mais cedo, coisa do tipo quatro e meia da tarde, e quando eram seis ou sete horas a falta de luz já era tão assustadora como é à meia noite aqui. aí esses trens iam passando por pequenas cidadezinhas, a maioria delas eu não faço idéia de como se chamavam. eu ficava imaginando vilarejos de cinco, dez mil habitantes, e aquelas estações construídas a não sei quantos anos. toda aquela escuridão, todo aquele breu, os habitantes que deviam ser agricultores ou pequenos comerciantes locais assistindo televisão e esperando um próximo dia. essa rotina eterna no meio do nada. e eu passando por ali, à noite, solitário.
sempre quis saber quem limpa os trilhos quando eles estão cobertos por centímetros e centímetros de neve, de madrugada. deve ser um dos trabalhos mais incríveis desse mundo. com certeza essas pessoas seriam excelentes escritores.
a estação central de roma toca incessantemente a música tema de a doce vida. eu não aguentava mais ouvir aquilo quando passava umas quatro ou cinco horas esperando trem nela, mas depois que eu voltei até já cheguei a colocar o dvd do filme só pra relembrar de um lugar que eu teoricamente não suportava.
cheguei em firenze num domingo de manhã, era muito cedo, umas cinco horas. minha preocupação central, além de conhecer a cidade, era comprar souvenirs pra enviar pra uma garota louca pelo local. fiz o melhor que eu pude e mandei num pacote já no dia seguinte. não sei se me deixa mais triste o fato de nunca ter chegado ou de que, mesmo que tivesse, não teria adiantado nada.
posso dizer que nunca deixei de ser eu mesmo só por estar longe de casa. e eu bebia até mais do que aqui, e acabava bebendo muita tequila, principalmente por ter vários mexicanos andando junto comigo. minha quantidade de amnésias alcóolicas por lá é imensa e é daí que vem um dos maiores enigmas da minha vida - acordar no meu quarto no já no dia seguinte descobrindo dois nomes de italianas anotadas num rascunho no meu celular e uma calcinha na minha mochila. acho que nunca vou descobrir o que realmente aconteceu naquele dia.
e, principalmente, eu não deixei de ser eu mesmo por aquelas coisas inerentes à vida. as características pessoais óbvias sobre a sua personalidade, como confundir as datas de sexta e sábado na hora de comprar passagem pra algum lugar e, na hora de embarcar, perceber que tinha errado tudo. carlos sendo carlos na essência mais pura da desatenção e da irresponsabilidade.
não sei o que fica de mais encantador nessa história toda. talvez seja alguém que tinha pizza como comida preferida passando a não aguentar mais ver pizza na frente. talvez seja tornar seu idioma principal quase secundário e desprezado na sua cabeça, uma das sensações mais incríveis de liberdade que existem. talvez a noção de o quanto uma cultura de um lugar longe pode ser tão diferente. talvez uma conversa com uma velhinha simpática de napoli me dizendo o quanto é bom morar naquela cidade.
só queria poder voltar a comer um pão italiano com queijo pecorino e salame numa cidadezinha do alto das montanhas coberta de neve. mas, um dia, i'll be back. ou melhor, io ritornerò.
um midiálogo. escritor e jogador de pôquer nas horas vagas. diretor do média-metragem "cinzas". publicou 'mulheres, noites, estradas e pedaços de sonhos' pela editora multifoco. infinitos vícios não recomendados, sobretudo álcool, cigarros e mulheres malucas.