não chorou quando ela foi embora. sentou-se na beira da cama, viu televisão por algumas horas, bebeu café amargo, tomou um banho quente e foi se deitar, impassível. ali, naquela cama repleta de lembranças, revirou-se por algumas horas. quando o dia seguinte amanheceu, foi à padaria mais próxima, leu a página policial e observou o rebolado da bela atendente.
voltou, disposto a dormir mais - porém, acabou traído por sua visão. na prateleira do armário, velhas presilhas coloridas desbotadas. na gaveta, duas calcinhas rasgadas. na entrada do banheiro, o tapete brega que ela comprara para não molhar o quarto. em cima da mesa, o copo de requeijão ainda pela metade.
ele a conhecera num ônibus intermunicipal, três meses atrás. ela vestia blusa e saia curta, trazia uma bolsa roxa e alguns papéis na mão. começaram a conversar, mas não tinham nada em comum - para ele, música clássica seria sempre imbatível, principalmente se acompanhada por conhaque e sexo selvagem. ela gostava de baladinhas com rock atual, regadas à vodka e que acabassem com carinhos. ele disse que deveria ter percebido isso pela bolsa roxa e a fez sorrir.
o fato é que se atraíram fisicamente de forma ímpar, e duas semanas depois já estavam vivendo juntos em um hotel barato do interior. trabalhavam em sub-empregos, chegavam e se amavam. gostavam daquela aventura, daquele sentimento tão incerto. ele dizia que nunca tinha visto peitos como aqueles. ela não tinha se aconchegado nunca no corpo de alguém como conseguia fazer com ele.
quando ela foi embora, não chorou. desceu as escadas, virou à esquerda, saiu, sentou-se na praça central. pensou em qual ônibus pegaria e para onde. resolveu esperar amanhecer. cochilou ali, mesmo tendo medo das pessoas que frequentariam aquele local durante a madrugada. quando viu o sol já onipresente, foi a uma banca de jornais, comprou um cartão telefônico, novas presilhas de cabelo coloridas e algumas balas.
então, sentiu falta daquele velho aconchego. subiu de volta para o hotel, virou à direita, passou pelas escadas, bateu na porta. ele atendeu, sorriu, deu-lhe um beijo e deitou-se na cama. sem falar nada, ela se deitou com ele, da forma que mais gostava, e antes de dormir sentiu a mão direita apertando-lhe os peitos. dormiram felizes, pelo menos naquele dia.
Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008
Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008
sobre charles bukowski
Nos beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.
Na manhã seguinte, acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava impressão de estar perfeitamente feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim, veio até a cama e me sacudiu.
Naquele dia, convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não havia chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado, longe da areia. Respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada, com aquela sensação gostosa de estar juntos. Comprei sanduíche, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fôssemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo e então respondeu, pensativa:
- Não.
Levei-a de volta para o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora.
Trecho de "Crônica de um Louco Amor".
Porque ninguém conseguiu, até hoje, ser tão lindamente melancólico.
Porque falar de amor, sexo e sofrimento são intimamente ligados.
Porque a vida fica incrivelmente mais bonita quando se consegue ser tão triste e tão intenso ao mesmo tempo.
Porque esse foi um dos seres que me fazem acreditar na humanidade.
Na manhã seguinte, acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava impressão de estar perfeitamente feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim, veio até a cama e me sacudiu.
Naquele dia, convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não havia chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado, longe da areia. Respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada, com aquela sensação gostosa de estar juntos. Comprei sanduíche, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fôssemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo e então respondeu, pensativa:
- Não.
Levei-a de volta para o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora.
Trecho de "Crônica de um Louco Amor".
Porque ninguém conseguiu, até hoje, ser tão lindamente melancólico.
Porque falar de amor, sexo e sofrimento são intimamente ligados.
Porque a vida fica incrivelmente mais bonita quando se consegue ser tão triste e tão intenso ao mesmo tempo.
Porque esse foi um dos seres que me fazem acreditar na humanidade.
Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
indicação
belos textos precisam ser apreciados.
http://diacu.blogspot.com/2008/08/meu-mais-novo-encanto.html
primeira e única propaganda da história deste blog.
http://diacu.blogspot.com/2008/08/meu-mais-novo-encanto.html
primeira e única propaganda da história deste blog.
Domingo, 27 de Julho de 2008
eles
ele era jovem, bonito e inteligente. ela era jovem, bonita e inteligente. ele estudava jornalismo numa das principais universidades do país. ela estudava publicidade numa das principais universidades do país. ele queria passar boa parte da vida na europa. ela queria passar boa parte da vida na europa. ele raramente cortava a barba, e seus amigos já o chamavam de rasputin. ela raramente cortava o cabelo, e suas amigas já a chamavam de rapunzel. ele tinha asma. ela tinha bronquite.
eles marcaram consulta com o doutor procópio. eles seriam atendidos no dia vinte e três de abril. eles entrariam no consultório com meia hora de diferença. eles chegaram ao local às duas e quinze da tarde. eles se sentaram a duas cadeiras de distância. eles colocaram suas mãos na bacia com revistas praticamente ao mesmo tempo. eles trocaram alguns olhares tímidos. eles pensaram sobre a falta de qualidade da novela que estava sendo exibida. eles folhearam sem muito entusiasmo o que haviam retirado da bacia.
ele gostava de mulheres com peitos grandes e piercing na sobrancelha. ela gostava de homens altos, magros e com tatuagem nas costas. ele gostava de conversar sobre a política norte-americana e a ascensão da direita européia. ela gostava de propagandas engraçadas e de pão com manteiga e mel. ele passava tardes sozinho, em casa, bebendo vodca enquanto observava sem muito entusiasmo a internet. ela passava tardes sozinha, em casa, bebendo chocolate quente e esperando passar um bom filme na televisão.
eles viram-se mutuamente e se sentiram atraídos. eles pensaram que o outro deveria ser mais uma pessoa comum, sem muito interesse, que nem valia a pena se comunicar. eles tinham grandes traumas amorosos no passado, com relações extremamente conturbadas. eles queriam ter alguém para recomeçar uma vida feliz. eles dormiam abraçados com seus travesseiros como se fosse um amor. eles logo desviaram seus pensamentos para coisas mundanas.
ele era alto, magro e tinha uma tatuagem nas costas. ela tinha peitos grandes e piercing na sobrancelha. ele costumava assistir propagandas clássicas no youtube. ela muitas vezes lia sobre barack obama no uol. ele bebia chocolate quente em noites frias e achava que o cinema era uma arte burguesa. ela bebia vodca misturada a outras coisas mais leves e conversava com as amigas no msn.
eles foram chamados para as suas consultas. eles saíram delas, desceram as escadas e falaram na recepção. eles voltaram a se olhar. eles pensaram nas características físicas que os atraíam. eles pensaram que talvez fosse uma boa trocar uma palavra com aquela outra pessoa. eles se dirigiram à porta de saída.
ele virou na segunda esquerda e caminhou para sua casa, que ficava a três quadras dali. ela virou na primeira direita e foi para o ponto de ônibus daquela escura rua do centro da cidade.
eles marcaram consulta com o doutor procópio. eles seriam atendidos no dia vinte e três de abril. eles entrariam no consultório com meia hora de diferença. eles chegaram ao local às duas e quinze da tarde. eles se sentaram a duas cadeiras de distância. eles colocaram suas mãos na bacia com revistas praticamente ao mesmo tempo. eles trocaram alguns olhares tímidos. eles pensaram sobre a falta de qualidade da novela que estava sendo exibida. eles folhearam sem muito entusiasmo o que haviam retirado da bacia.
ele gostava de mulheres com peitos grandes e piercing na sobrancelha. ela gostava de homens altos, magros e com tatuagem nas costas. ele gostava de conversar sobre a política norte-americana e a ascensão da direita européia. ela gostava de propagandas engraçadas e de pão com manteiga e mel. ele passava tardes sozinho, em casa, bebendo vodca enquanto observava sem muito entusiasmo a internet. ela passava tardes sozinha, em casa, bebendo chocolate quente e esperando passar um bom filme na televisão.
eles viram-se mutuamente e se sentiram atraídos. eles pensaram que o outro deveria ser mais uma pessoa comum, sem muito interesse, que nem valia a pena se comunicar. eles tinham grandes traumas amorosos no passado, com relações extremamente conturbadas. eles queriam ter alguém para recomeçar uma vida feliz. eles dormiam abraçados com seus travesseiros como se fosse um amor. eles logo desviaram seus pensamentos para coisas mundanas.
ele era alto, magro e tinha uma tatuagem nas costas. ela tinha peitos grandes e piercing na sobrancelha. ele costumava assistir propagandas clássicas no youtube. ela muitas vezes lia sobre barack obama no uol. ele bebia chocolate quente em noites frias e achava que o cinema era uma arte burguesa. ela bebia vodca misturada a outras coisas mais leves e conversava com as amigas no msn.
eles foram chamados para as suas consultas. eles saíram delas, desceram as escadas e falaram na recepção. eles voltaram a se olhar. eles pensaram nas características físicas que os atraíam. eles pensaram que talvez fosse uma boa trocar uma palavra com aquela outra pessoa. eles se dirigiram à porta de saída.
ele virou na segunda esquerda e caminhou para sua casa, que ficava a três quadras dali. ela virou na primeira direita e foi para o ponto de ônibus daquela escura rua do centro da cidade.
Terça-feira, 22 de Julho de 2008
três anos
há três anos, escrevi este texto para pôr no about me do orkut.
o tempo passa.
-------------------------------------------------------------------------------
eu queria ter oito anos pra sempre.
queria ter prazer em acordar cedo porque os desenhos da tv manchete eram muito legais, e depois que eles acabassem arrumar minha mochila e chegar meia hora antes do início da primeira aula na escola pra brincar de pega pega.
queria achar minhas professoras super letradas, adquirir o conhecimento daquelas aulas copiando tudo que elas ditam e ganhar medalhas no campeonato de tabuada, me achando o ser mais inteligente do mundo por isso.
queria não me preocupar com nada, com ter que arrumar um emprego ou ter que dar um jeito na minha vida muito em breve, não ouvir de ninguém que meu futuro vai ser acabar na cadeia ou virar alcóolatra porque gente dessa idade não pode beber desse jeito.
queria jogar bola todas as tardes com meu pai na garagem, inventando os times e os jogadores, e depois pegar meus carrinhos e fazer uma corrida de fórmula 1 também inventando os pilotos.
queria deitar no colo da minha mãe pra assistir televisão, e depois que acabasse a novela dela, ligar meu vídeo-game com a super nova fita do mickey mouse e jogá-la ao lado da pelúcia do mickey até ficar muito tarde pra uma criança estar acordada.
queria ir na casa do meu avô muito feliz sabendo que ele é a pessoa mais legal do mundo e que só molhar plantas com ele já basta, mas ao mesmo tempo, subir no banquinho e decorar os nomes de todos os pássaros em uma tabela seria excelente e me entreteria por horas.
queria chorar de alegria. por ir no maxi shopping, por saber que eu não vou mais embora de jundiaí e vou poder ficar com meus amigos mais tempo. ou por ganhar uma fita nova de super nintendo. ou por jogar fliperama.
mas eu também queria ser livre.e ninguém é livre com oito anos. não é livre para o mundo que você passa a conhecer quando tem dezessete - o mundo, o cinema, a arte, a namorada. eu queria ter oito anos, mas ter o cinema e a minha namorada. eu queria, talvez, não ter idade.
ou talvez viver dentro de chaves. ser amigo dele e do quico, aprender com os trambiques do seu madruga e dar pauladas no seu barriga. lá todos tinham oito anos pra sempre, lá todos eram livres, numa liberdade ilusória, dentro de um programa de televisão que eles nem sabiam estar.
então também não servia. eu queria ir para outro planeta, não tendo oito anos nem dezessete. não tendo idade nenhuma. viver num espaço de tempo indeterminado, inócuo e alterável de acordo com meu pensamento. onde só existisse eu e minhas duas paixões descritas ai embaixo.
mas isso é impossível. e eu vou continuar aqui, com minha alma moralista e hipócrita, pseudo-arrogante, pseudo-foda, escrevendo textos no about me do orkut pra tentar se sentir melhor. e não vou conseguir, nunca.ou talvez algum dia, se eu conseguir me enquadrar em uma sociedade típica, ou se eu achar a minha sociedade, algo que possa ser complementar a mim e às minhas paixões.
até lá, nada. perspectiva nenhuma, vida cortada pela minha mania de grandeza, que é falsa como é qualquer coisa sonhada por um menino de oito anos.
-------------------------------------------------------------------------------
o que eu penso sobre isso hoje?
nada. mas eu não queria ter oito anos pra sempre. como naquela época já não queria.
na verdade, eu não tenho a menor idéia do que eu quero.
talvez que o tempo seja um pouco menos avassalador. com tudo.
o tempo passa.
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eu queria ter oito anos pra sempre.
queria ter prazer em acordar cedo porque os desenhos da tv manchete eram muito legais, e depois que eles acabassem arrumar minha mochila e chegar meia hora antes do início da primeira aula na escola pra brincar de pega pega.
queria achar minhas professoras super letradas, adquirir o conhecimento daquelas aulas copiando tudo que elas ditam e ganhar medalhas no campeonato de tabuada, me achando o ser mais inteligente do mundo por isso.
queria não me preocupar com nada, com ter que arrumar um emprego ou ter que dar um jeito na minha vida muito em breve, não ouvir de ninguém que meu futuro vai ser acabar na cadeia ou virar alcóolatra porque gente dessa idade não pode beber desse jeito.
queria jogar bola todas as tardes com meu pai na garagem, inventando os times e os jogadores, e depois pegar meus carrinhos e fazer uma corrida de fórmula 1 também inventando os pilotos.
queria deitar no colo da minha mãe pra assistir televisão, e depois que acabasse a novela dela, ligar meu vídeo-game com a super nova fita do mickey mouse e jogá-la ao lado da pelúcia do mickey até ficar muito tarde pra uma criança estar acordada.
queria ir na casa do meu avô muito feliz sabendo que ele é a pessoa mais legal do mundo e que só molhar plantas com ele já basta, mas ao mesmo tempo, subir no banquinho e decorar os nomes de todos os pássaros em uma tabela seria excelente e me entreteria por horas.
queria chorar de alegria. por ir no maxi shopping, por saber que eu não vou mais embora de jundiaí e vou poder ficar com meus amigos mais tempo. ou por ganhar uma fita nova de super nintendo. ou por jogar fliperama.
mas eu também queria ser livre.e ninguém é livre com oito anos. não é livre para o mundo que você passa a conhecer quando tem dezessete - o mundo, o cinema, a arte, a namorada. eu queria ter oito anos, mas ter o cinema e a minha namorada. eu queria, talvez, não ter idade.
ou talvez viver dentro de chaves. ser amigo dele e do quico, aprender com os trambiques do seu madruga e dar pauladas no seu barriga. lá todos tinham oito anos pra sempre, lá todos eram livres, numa liberdade ilusória, dentro de um programa de televisão que eles nem sabiam estar.
então também não servia. eu queria ir para outro planeta, não tendo oito anos nem dezessete. não tendo idade nenhuma. viver num espaço de tempo indeterminado, inócuo e alterável de acordo com meu pensamento. onde só existisse eu e minhas duas paixões descritas ai embaixo.
mas isso é impossível. e eu vou continuar aqui, com minha alma moralista e hipócrita, pseudo-arrogante, pseudo-foda, escrevendo textos no about me do orkut pra tentar se sentir melhor. e não vou conseguir, nunca.ou talvez algum dia, se eu conseguir me enquadrar em uma sociedade típica, ou se eu achar a minha sociedade, algo que possa ser complementar a mim e às minhas paixões.
até lá, nada. perspectiva nenhuma, vida cortada pela minha mania de grandeza, que é falsa como é qualquer coisa sonhada por um menino de oito anos.
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o que eu penso sobre isso hoje?
nada. mas eu não queria ter oito anos pra sempre. como naquela época já não queria.
na verdade, eu não tenho a menor idéia do que eu quero.
talvez que o tempo seja um pouco menos avassalador. com tudo.
Sexta-feira, 11 de Julho de 2008
itinerários
gostava de andar de ônibus à noite, sobretudo quando estava frio. sentia aquele vento entrando pelas janelas e atingindo as pessoas, aparentemente irritadas, ou cansadas, ou conversando sobre os mais diversos assuntos. algumas demonstravam felicidade, e às vezes alguns casais sentavam-se nas proximidades - beijavam-se e falavam as coisas bobas que normalmente se diz quando se está apaixonado. o escuro parecia acentuar a humanidade. os rostos brilhavam mais, as pessoas se diferenciavam mais em seus gostos, suas vidas, suas paixões.
às vezes, simplesmente viajava sem direção. dirigia-se a um terminal qualquer naquela cidade média e pegava um ônibus para um bairro que nunca tinha ido. algumas viagens duravam uma ou duas horas, passavam por locais estranhos, pobres ou simplesmente mal-cuidados. observava as pessoas que estariam presentes em sua vida por apenas aqueles minutos. observava suas reações ao frio e ao escuro que tanto adorava.
depois, parou de fazer isso. a vida se atribulou, encheu-se de compromissos - era emprego, era mulher, era o cansaço de transformar-se em outro cidadão que não observava mais a cidade e seus contornos como uma figura solitária, mas que simplesmente estava de passagem, buscando o conforto da luz da sala e o calor dos cobertores. antes de se casar, comprou um carro. tinha pelo menos dez anos e algumas marcas de batidas, mas poderia levar a esposa ao supermercado e, em breve, os filhos à escola.
os ônibus de todos os dias ganharam uma poltrona vazia, que logo foi substituída. outra pessoa se sentaria lá para observar a cidade. outra pessoa veria os casais apaixonados e imaginaria por quanto tempo aquilo duraria. outra pessoa emprestaria o brilho de sua solidão ao mundo. não mais ele. enquanto as velhas latas amarelas circulavam com seus itinerários definidos, ele estaria ao volante de seu pequeno transporte, fazendo um itinerário ainda mais definido, só que este sem nenhum brilho.
às vezes, simplesmente viajava sem direção. dirigia-se a um terminal qualquer naquela cidade média e pegava um ônibus para um bairro que nunca tinha ido. algumas viagens duravam uma ou duas horas, passavam por locais estranhos, pobres ou simplesmente mal-cuidados. observava as pessoas que estariam presentes em sua vida por apenas aqueles minutos. observava suas reações ao frio e ao escuro que tanto adorava.
depois, parou de fazer isso. a vida se atribulou, encheu-se de compromissos - era emprego, era mulher, era o cansaço de transformar-se em outro cidadão que não observava mais a cidade e seus contornos como uma figura solitária, mas que simplesmente estava de passagem, buscando o conforto da luz da sala e o calor dos cobertores. antes de se casar, comprou um carro. tinha pelo menos dez anos e algumas marcas de batidas, mas poderia levar a esposa ao supermercado e, em breve, os filhos à escola.
os ônibus de todos os dias ganharam uma poltrona vazia, que logo foi substituída. outra pessoa se sentaria lá para observar a cidade. outra pessoa veria os casais apaixonados e imaginaria por quanto tempo aquilo duraria. outra pessoa emprestaria o brilho de sua solidão ao mundo. não mais ele. enquanto as velhas latas amarelas circulavam com seus itinerários definidos, ele estaria ao volante de seu pequeno transporte, fazendo um itinerário ainda mais definido, só que este sem nenhum brilho.
Sexta-feira, 4 de Julho de 2008
um pedaço de alguma coisa
eu escrevo aqui quando tenho vontade. mais precisamente, quando tenho vontade e alguma coisa pra escrever. por isso, é normal que este blog passe por longos períodos sem atualização e etc. acontece.
esse último texto aí embaixo começou a me atormentar numa madrugada de domingo pra segunda-feira. deitei pra dormir, precisando estar de pé às 6 da manhã, e ele bateu na minha cabeça. bateu e martelou. não saía mais. tive que deixar a minha cama, ligar o pc e digitá-lo. enfim, coisas estranhas.
como não tenho "alguma coisa" pra escrever desta vez - faz algum tempo que nada me faz deixar a minha cama e vir apertar estes botões - deixo vocês com o trailer do meu curta mesmo. um curta sem recurso nenhum, concluo.
até a próxima noite de tormentos.
http://www.youtube.com/watch?v=2Mvt-HLCt5E
esse último texto aí embaixo começou a me atormentar numa madrugada de domingo pra segunda-feira. deitei pra dormir, precisando estar de pé às 6 da manhã, e ele bateu na minha cabeça. bateu e martelou. não saía mais. tive que deixar a minha cama, ligar o pc e digitá-lo. enfim, coisas estranhas.
como não tenho "alguma coisa" pra escrever desta vez - faz algum tempo que nada me faz deixar a minha cama e vir apertar estes botões - deixo vocês com o trailer do meu curta mesmo. um curta sem recurso nenhum, concluo.
até a próxima noite de tormentos.
http://www.youtube.com/watch?v=2Mvt-HLCt5E
Segunda-feira, 23 de Junho de 2008
promessa
- promete que nunca vai me abandonar?
ela estava deitada, com a cabeça no peito dele. estavam juntos há três meses e era a primeira vez que iam ao motel. o sexo tinha sido bom, apaixonado, daquele com os corpos grudados, devagar e com gemidos leves. já era hora de dormir, mas por algum motivo, permaneceram acordados até aquelas palavras serem proferidas.
quando ele ouviu, sentiu-se tocado, obrigado a concordar. e concordou. e prometeu. não sabia se conseguiria manter a promessa, mas sentiu-se bem fazendo-a. achou que ninguém se lembraria dela, nem mesmo ele. tinha um grande amor por ela, mas não sabia se duraria, se seria extenso, intenso, entre outros adjetivos. por sua vez, ela quase chorou ouvindo aquilo - era o homem que sempre sonhara, e, toda aconchegada por ele, ouvira as palavras de seus sonhos. fechou os olhos e dormiu feliz.
o tempo passou. foram morar juntos. veio a rotina, vieram as brigas, os mal-entendidos, as confusões - ciúmes, bebida, futebol, amigos, companhias. muitas acabaram na cama, mas cada uma era uma cicatriz a mais - só que, nele, cada cicatriz fortalecia o amor, criava um laço mais forte com ela, enquanto nela, era como se arrancasse um pedaço de tudo aquilo.
ele se sentia cada vez mais preso a ela, cada vez mais louco, e ao mesmo tempo, vendo-a cada vez mais distante, como se estivesse dispersa.
um dia, chegou do trabalho e a viu arrumando as coisas. olhou já sentindo o pior. ouviu:
- não dá mais. tô indo embora.
naquele momento, lembrou da promessa que tinha feito. soube que cumpriu a promessa que fizera. mas chorou, chorou muito, e sentiu aquilo como o pior de todos os golpes. percebeu, então, que preferia ter o amor dela que ser um homem de palavra.
ela estava deitada, com a cabeça no peito dele. estavam juntos há três meses e era a primeira vez que iam ao motel. o sexo tinha sido bom, apaixonado, daquele com os corpos grudados, devagar e com gemidos leves. já era hora de dormir, mas por algum motivo, permaneceram acordados até aquelas palavras serem proferidas.
quando ele ouviu, sentiu-se tocado, obrigado a concordar. e concordou. e prometeu. não sabia se conseguiria manter a promessa, mas sentiu-se bem fazendo-a. achou que ninguém se lembraria dela, nem mesmo ele. tinha um grande amor por ela, mas não sabia se duraria, se seria extenso, intenso, entre outros adjetivos. por sua vez, ela quase chorou ouvindo aquilo - era o homem que sempre sonhara, e, toda aconchegada por ele, ouvira as palavras de seus sonhos. fechou os olhos e dormiu feliz.
o tempo passou. foram morar juntos. veio a rotina, vieram as brigas, os mal-entendidos, as confusões - ciúmes, bebida, futebol, amigos, companhias. muitas acabaram na cama, mas cada uma era uma cicatriz a mais - só que, nele, cada cicatriz fortalecia o amor, criava um laço mais forte com ela, enquanto nela, era como se arrancasse um pedaço de tudo aquilo.
ele se sentia cada vez mais preso a ela, cada vez mais louco, e ao mesmo tempo, vendo-a cada vez mais distante, como se estivesse dispersa.
um dia, chegou do trabalho e a viu arrumando as coisas. olhou já sentindo o pior. ouviu:
- não dá mais. tô indo embora.
naquele momento, lembrou da promessa que tinha feito. soube que cumpriu a promessa que fizera. mas chorou, chorou muito, e sentiu aquilo como o pior de todos os golpes. percebeu, então, que preferia ter o amor dela que ser um homem de palavra.
Quarta-feira, 4 de Junho de 2008
sobre fazer cinema
decidi que queria ser cineasta com, sei lá, doze anos de idade. foi em uma madrugada fria, provavelmente de junho ou julho, e eu, sem nada para fazer, comecei a ver um filme no intercine. meus olhos brilhavam, eu passava por uma experiência única de reflexão, de imersão pessoal, de ter um horizonte para seguir a partir dali. o filme daquela oportunidade foi o "meu preferido" por uns dois anos a partir daquilo. seu nome é "um sonho de liberdade" - nunca mais o vi, mas ainda tenho sua lembrança muito forte em minha cabeça. ou não.
digo "ou não" porque talvez - e muito provavelmente - o que está tão vívido em minha memória seja a experiência daquela noite. acredito que, se voltasse a ver aquele filme hoje, iria gostar, mas não o colocaria nem entre os principais que já vi no ano. ou, quem sabe, ele sempre me emocionaria e manteria seu lugar ali devido à forte carga emocional que me traria. quem sabe.
pois bem. aproximadamente oito anos se passaram. nesse tempo, eu vi centenas de filmes, de todas as épocas, gêneros, da maioria das nacionalidades. tentei fazer alguns curtas, sempre sem sucesso. uma vez, fiz uma espécie de documentário, disponível no youtube, que recebeu muitos elogios. mas, convenhamos, está longe de ser o que eu considero "arte cinematográfica", mesmo que eu me orgulhe dele.
semana passada, porém, pela primeira vez eu estive em uma sala, com câmeras de verdade, uma equipe escalada, um roteiro bem estruturado escrito por mim mesmo com bastante cuidado, uma atriz de ofício. me senti estranho com tudo aquilo. durante as filmagens, algumas vezes torci para que acabasse logo. queria voltar para a minha casa, queria deitar na minha cama e, quem sabe, simplesmente apreciar quem realmente sabe fazer aquilo. ser um cineasta - mesmo que de faculdade pública - me soou algo incompreensível.
para fazer as cenas externas, já olhava tudo de um modo diferente. tinha mais segurança de mim, conseguia, talvez, passar instruções mais exatas. imaginar o filme perfeitamente saindo da minha cabeça e indo para a câmera. imaginar o quadro na tela - não como você imagina, tão utopicamente, quando está escrevendo o roteiro, mas já com uma concepção imagética diferente, algo que me deixou satisfatoriamente contente.
aquela velha maxima sobre cineastas - "quando voce esta filmando, tudo o que quer é acabar logo, quando voce nao esta filmando, tudo o que quer é filmar logo", talvez seja a mais pura verdade. mas o fazer cinema por si só me trouxe, já após a reflexão, um momento emocional delicadamente proximo àquele do assistir cinema que tive oito anos atrás. esse meu curta - oculto é o nome dele - tem pouquíssimas chances de ficar bom, foi feito por uma equipe de universitários pobres, sem verba nenhuma, mas com muita vontade e empenho. só que, por pior que ele fique, estará aqui, comigo, como a lembrança de como foi me sentir fazendo cinema pela primeira vez.
digo "ou não" porque talvez - e muito provavelmente - o que está tão vívido em minha memória seja a experiência daquela noite. acredito que, se voltasse a ver aquele filme hoje, iria gostar, mas não o colocaria nem entre os principais que já vi no ano. ou, quem sabe, ele sempre me emocionaria e manteria seu lugar ali devido à forte carga emocional que me traria. quem sabe.
pois bem. aproximadamente oito anos se passaram. nesse tempo, eu vi centenas de filmes, de todas as épocas, gêneros, da maioria das nacionalidades. tentei fazer alguns curtas, sempre sem sucesso. uma vez, fiz uma espécie de documentário, disponível no youtube, que recebeu muitos elogios. mas, convenhamos, está longe de ser o que eu considero "arte cinematográfica", mesmo que eu me orgulhe dele.
semana passada, porém, pela primeira vez eu estive em uma sala, com câmeras de verdade, uma equipe escalada, um roteiro bem estruturado escrito por mim mesmo com bastante cuidado, uma atriz de ofício. me senti estranho com tudo aquilo. durante as filmagens, algumas vezes torci para que acabasse logo. queria voltar para a minha casa, queria deitar na minha cama e, quem sabe, simplesmente apreciar quem realmente sabe fazer aquilo. ser um cineasta - mesmo que de faculdade pública - me soou algo incompreensível.
para fazer as cenas externas, já olhava tudo de um modo diferente. tinha mais segurança de mim, conseguia, talvez, passar instruções mais exatas. imaginar o filme perfeitamente saindo da minha cabeça e indo para a câmera. imaginar o quadro na tela - não como você imagina, tão utopicamente, quando está escrevendo o roteiro, mas já com uma concepção imagética diferente, algo que me deixou satisfatoriamente contente.
aquela velha maxima sobre cineastas - "quando voce esta filmando, tudo o que quer é acabar logo, quando voce nao esta filmando, tudo o que quer é filmar logo", talvez seja a mais pura verdade. mas o fazer cinema por si só me trouxe, já após a reflexão, um momento emocional delicadamente proximo àquele do assistir cinema que tive oito anos atrás. esse meu curta - oculto é o nome dele - tem pouquíssimas chances de ficar bom, foi feito por uma equipe de universitários pobres, sem verba nenhuma, mas com muita vontade e empenho. só que, por pior que ele fique, estará aqui, comigo, como a lembrança de como foi me sentir fazendo cinema pela primeira vez.
Sábado, 17 de Maio de 2008
o amor liberta
Pablo tinha 32 anos. Era um daqueles homens tímidos, recatados, destinados a uma vida medíocre e nada bem-sucedida devido, entre outras coisas, a isso. Tinha sérias dificuldades para se relacionar com as mulheres, conseguindo possuí-las um número insignificante de vezes - Até mesmo nas profissionais era muito complicado chegar, falar, sentir-se à vontade. Suas poucas paixões foram esquecidas com algumas doses de filmes pornôs vagabundos.
Catherine estava no Brasil há dois meses. Parisiense, muito bonita, extremamente ligada na efervescência cultural onde vive, mas ainda um pouco triste por não ter vivido a década de 60 - sonhava loucamente em ser Anna Karina. Por isso, fazia teatro. Queria, um dia, virar atriz de cinema, e, quem sabe, ter o prazer de ainda trabalhar com Godard! Gostava de conhecer culturas diferentes, por isso viajara para tão longe, em intercâmbio da faculdade.
Um dia, o irmão mais novo de Pablo pediu para que ele o fosse buscar na faculdade. Alberto, jovem brilhante, praticamente o contrário do irmão na vida e com as mulheres. Ah, sim, ator. Faculdade de artes cênicas, ainda, sendo mais específico. Quando Pablo chegou, o irmão conversava com Catherine. Ele a viu. Seus olhos brilharam. Que beleza, que modo de se vestir. Nunca se sentira assim. Alberto entrou no carro e ela acenou, em um gesto muito gracioso. Ela virou-se, e ele demorou para poder dar a partida.
Nos dias seguintes, pouco pôde pensar a não ser em Catherine. Conversou com o irmão, tomando cuidado, porém, para não demonstrar interesse. Dormiu sempre com sonhos molhados. Descobriu seu nome, de onde vem, de que comidas gostava e quando tempo ainda tinha no Brasil. Faltava só uma coisa: coragem.
Passou a se oferecer para buscar o irmão na faculdade. Sempre assistia impassível ele se despedindo da amiga francesa e dos demais colegas. Ficava pensando como ela devia odiá-lo - A via todos os dias e nem sequer acenava! Nem um sorriso! Nada! Um homem das cavernas para uma menina tão delicada. Depois, chegava em casa, se olhava no espelho, suspirava continuamente. Um dia, resolveu ligar para ela. Diria que o Alberto pediu pra buscá-la e levá-la a um restaurante, onde ele estaria. Depois disso, pensaria no que fazer. É, era isso mesmo!
Pegou a agenda de Alberto. "Catherine". Viu o número mais próximo. Ligou. Toque. Toque. Mais três toques. "Alô". Uma voz de homem. Voz de homem? Como assim? Caralho! Voz de Homem não! Desligou imediatamente. Ela já arrumara outro brasileiro, pensou. Não podia deixar isso ocorrer. Ela tinha que ser dele e mais ninguém.
Repetiu o procedimento durante uma semana. Ligava para aquele número sempre esperando a voz de Catherine, sempre com a mesma desculpa. Em todas as vezes, a mesma voz de homem do outro lado. Não era possível.
Um dia, estava sentado com Alberto. Ele pegou a caderneta. Abriu naquela página. Discou o número. Pablo ouviu. "Oi, Luís, aqui é o Alberto". "Tudo sim, e aí?", "É, é sobre aquele projeto. Queria falar sobre ele." "Hoje? Caralho, que bom! Dez e meia? No bar dos três irmãos?", "Beleza! Vou lá sim", "Falou!"
Luís. Esse era o nome do malfeitor. Pablo levaria Alberto, estava decidido. Convenceu o irmão logo. A paixão o faria fazer de tudo. Lá, descobriria todos os problemas. Se possível, Catherine já seria dele no dia seguinte!
Parou o carro. Alberto saiu. Pablo deu a volta no quarteirão, deixou o carro um pouco longe do bar e foi a pé. Olhou pelo grande vidro, através do qual se enxergava todo o interior. Lá estava Alberto. Lá estava Catherine. Lá estavam três outros homens, bem vestidos, parecendo cultos. Um deles haveria de ser Luís, o malfeitor.
Luís era cineasta. Estava na casa dos quarenta anos, era casado, mas adepto do teste do sofá. Tinha medo de que deus o condenasse ao inferno por isso, quando morresse. Estava preparando um filme que seria um romance entre um brasileiro ultra-mulherengo que se apaixonava por uma turista francesa mortalmente, mas ficava totalmente sem referências sobre ela a partir de sua partida, e a partir de então, não conseguia mais se relacionar com ninguém. As únicas Catherines que conheciam eram Catherine Deneuve e a personagem de Jeanne Moreau em Jules e Jim. Aquela, conheceria na noite do evento, pensando em contratá-la para o papel.
No tempo dessa apresentação, Pablo foi até o carro, abriu o porta-luvas e retirou um martelo. Esperou sentado no banco do motorista. Viu dois dos homens irem embora. Saiu do carro. Entrou no bar, viu o homem que acompanhava Catherine e Alberto e foi até ele.
"O que você está fazendo com ela, porra?" "Ela é minha, só minha! FIlho da puta!", esbravejava enquanto olhava para Luís e Catherine. Tirou o martelo que estava escondido em baixou da blusa e descarregou violentamente na cabeça do homem. Várias vezes até que alguém fizesse alguma coisa. Tudo ficou manchado de sangue. A cabeça do cineasta estava afundada.
Pablo pegou 20 anos de prisão. No dia de seu julgamento, Catherine estrelava seu primeiro filme na França. Luís nunca teve nenhuma retrospectiva no Canal Brasil. Era um cineasta cafona demais. Sorte da francesa. Pelo menos um bem, Pablo fez.
Na agenda de Alberto, a página mostrava "Catherine", bem escrito, e um número. Em cima do nome da francesa, em letras menores, "Luís, diretor do filme da."
Catherine estava no Brasil há dois meses. Parisiense, muito bonita, extremamente ligada na efervescência cultural onde vive, mas ainda um pouco triste por não ter vivido a década de 60 - sonhava loucamente em ser Anna Karina. Por isso, fazia teatro. Queria, um dia, virar atriz de cinema, e, quem sabe, ter o prazer de ainda trabalhar com Godard! Gostava de conhecer culturas diferentes, por isso viajara para tão longe, em intercâmbio da faculdade.
Um dia, o irmão mais novo de Pablo pediu para que ele o fosse buscar na faculdade. Alberto, jovem brilhante, praticamente o contrário do irmão na vida e com as mulheres. Ah, sim, ator. Faculdade de artes cênicas, ainda, sendo mais específico. Quando Pablo chegou, o irmão conversava com Catherine. Ele a viu. Seus olhos brilharam. Que beleza, que modo de se vestir. Nunca se sentira assim. Alberto entrou no carro e ela acenou, em um gesto muito gracioso. Ela virou-se, e ele demorou para poder dar a partida.
Nos dias seguintes, pouco pôde pensar a não ser em Catherine. Conversou com o irmão, tomando cuidado, porém, para não demonstrar interesse. Dormiu sempre com sonhos molhados. Descobriu seu nome, de onde vem, de que comidas gostava e quando tempo ainda tinha no Brasil. Faltava só uma coisa: coragem.
Passou a se oferecer para buscar o irmão na faculdade. Sempre assistia impassível ele se despedindo da amiga francesa e dos demais colegas. Ficava pensando como ela devia odiá-lo - A via todos os dias e nem sequer acenava! Nem um sorriso! Nada! Um homem das cavernas para uma menina tão delicada. Depois, chegava em casa, se olhava no espelho, suspirava continuamente. Um dia, resolveu ligar para ela. Diria que o Alberto pediu pra buscá-la e levá-la a um restaurante, onde ele estaria. Depois disso, pensaria no que fazer. É, era isso mesmo!
Pegou a agenda de Alberto. "Catherine". Viu o número mais próximo. Ligou. Toque. Toque. Mais três toques. "Alô". Uma voz de homem. Voz de homem? Como assim? Caralho! Voz de Homem não! Desligou imediatamente. Ela já arrumara outro brasileiro, pensou. Não podia deixar isso ocorrer. Ela tinha que ser dele e mais ninguém.
Repetiu o procedimento durante uma semana. Ligava para aquele número sempre esperando a voz de Catherine, sempre com a mesma desculpa. Em todas as vezes, a mesma voz de homem do outro lado. Não era possível.
Um dia, estava sentado com Alberto. Ele pegou a caderneta. Abriu naquela página. Discou o número. Pablo ouviu. "Oi, Luís, aqui é o Alberto". "Tudo sim, e aí?", "É, é sobre aquele projeto. Queria falar sobre ele." "Hoje? Caralho, que bom! Dez e meia? No bar dos três irmãos?", "Beleza! Vou lá sim", "Falou!"
Luís. Esse era o nome do malfeitor. Pablo levaria Alberto, estava decidido. Convenceu o irmão logo. A paixão o faria fazer de tudo. Lá, descobriria todos os problemas. Se possível, Catherine já seria dele no dia seguinte!
Parou o carro. Alberto saiu. Pablo deu a volta no quarteirão, deixou o carro um pouco longe do bar e foi a pé. Olhou pelo grande vidro, através do qual se enxergava todo o interior. Lá estava Alberto. Lá estava Catherine. Lá estavam três outros homens, bem vestidos, parecendo cultos. Um deles haveria de ser Luís, o malfeitor.
Luís era cineasta. Estava na casa dos quarenta anos, era casado, mas adepto do teste do sofá. Tinha medo de que deus o condenasse ao inferno por isso, quando morresse. Estava preparando um filme que seria um romance entre um brasileiro ultra-mulherengo que se apaixonava por uma turista francesa mortalmente, mas ficava totalmente sem referências sobre ela a partir de sua partida, e a partir de então, não conseguia mais se relacionar com ninguém. As únicas Catherines que conheciam eram Catherine Deneuve e a personagem de Jeanne Moreau em Jules e Jim. Aquela, conheceria na noite do evento, pensando em contratá-la para o papel.
No tempo dessa apresentação, Pablo foi até o carro, abriu o porta-luvas e retirou um martelo. Esperou sentado no banco do motorista. Viu dois dos homens irem embora. Saiu do carro. Entrou no bar, viu o homem que acompanhava Catherine e Alberto e foi até ele.
"O que você está fazendo com ela, porra?" "Ela é minha, só minha! FIlho da puta!", esbravejava enquanto olhava para Luís e Catherine. Tirou o martelo que estava escondido em baixou da blusa e descarregou violentamente na cabeça do homem. Várias vezes até que alguém fizesse alguma coisa. Tudo ficou manchado de sangue. A cabeça do cineasta estava afundada.
Pablo pegou 20 anos de prisão. No dia de seu julgamento, Catherine estrelava seu primeiro filme na França. Luís nunca teve nenhuma retrospectiva no Canal Brasil. Era um cineasta cafona demais. Sorte da francesa. Pelo menos um bem, Pablo fez.
Na agenda de Alberto, a página mostrava "Catherine", bem escrito, e um número. Em cima do nome da francesa, em letras menores, "Luís, diretor do filme da."
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